O estar feliz é um estado hedônico.
O ser feliz é um Estado edênico.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
O notâmbulo que agora perambula
conta com suas chagas quiméricas abertas
Andejando e
sentindo o azedume das esquinas,
das histéricas
das roupas íntimas penduradas no varal
Secas,
como a vulva provinciana da moça
Mulher de couraça gélida,
fuselagem marmórea
Dotada de silêncio tão denso
que alguém deveria corta-la com uma faca
Palavras que não surtem afeto
(efeito)
Nem mesmo quando
instaladas no horizonte vertical da poesia
De súbito
todas as abstrações abandonam a sala
constrangidas de suas gabolices,
enfaradas de tanto tentar
Deixam assim,
para além do riso da moça
um espaço destituído de matéria.
conta com suas chagas quiméricas abertas
Andejando e
sentindo o azedume das esquinas,
das histéricas
das roupas íntimas penduradas no varal
Secas,
como a vulva provinciana da moça
Mulher de couraça gélida,
fuselagem marmórea
Dotada de silêncio tão denso
que alguém deveria corta-la com uma faca
Palavras que não surtem afeto
(efeito)
Nem mesmo quando
instaladas no horizonte vertical da poesia
De súbito
todas as abstrações abandonam a sala
constrangidas de suas gabolices,
enfaradas de tanto tentar
Deixam assim,
para além do riso da moça
um espaço destituído de matéria.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
A Nau desflora as pétalas marítimas. Solta-se em disparada aos quatro ventos por caminhos ásperos, ébrios, brutos e róseos. Dentre as embarcações destes mares remotos, avista-se um ponto lá longe, num barquinho distante, uma Nau flagrou outros portos...
A maresia tem sempre o mesmo cheiro divinal.
As sereias têm sempre o mesmo cheiro vaginal.
A nau aprendeu o que sabe na escola das ondas. O pranto cristalino cabe na imensidão do infinito azul. Ou cabe no cilíndrico de um copo. De um corpo.
A maresia tem sempre o mesmo cheiro divinal.
As sereias têm sempre o mesmo cheiro vaginal.
A nau aprendeu o que sabe na escola das ondas. O pranto cristalino cabe na imensidão do infinito azul. Ou cabe no cilíndrico de um copo. De um corpo.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
País tropical
Mahmoud Ahmadinejad é uma criatura ímpar: o homem que questiona a veracidade histórica acerca do Holocausto e ainda, o político que ministra uma palestra na qual profere ameaças e palavras de ordem contra os EUA numa Universidade em pleno território americano é também o mesmo distinto cavalheiro que pede – via Itamaraty -uma camisa do Clube de Regatas Flamengo. Marcio Braga, o atual presidente da instituição ficou atônito: “o cara que quer explodir Israel, me pede uma camisa do Flamengo. Maravilha”.
Do modo como anda a carruagem (ou o carro bomba), pode até ser que, após vestir o manto rubro negro, Mahmoud decida subir o morro e beber cachaça. Ser flamengo ele já é. Apenas falta ter agora uma nega (o escuro da burkha não conta, que fique bem claro!) para alegria de Ben Jor.
Mahmoud Ahmadinejad vestir a camisa do mengão é a prova cabal e definitiva de que nosso país enseja a sina do exótico em sua verve: todos os gringos querem extrair um naco da alegoria extravagante made in Brazil. Não importa de que lugar do globo a criatura seja; sendo “estranja” qualquer um quer um pedaço da fatia da sobremesa exótica destes trópicos: desde o italiano cinquentão e seu inofensivo turismo sexual ou a sueca (que nessa altura do campeonato brasileiro já se encontra alvi-rubra devido ao sol escaldante) nas areias de Copacabana, ou seja ainda simplesmente o presidente do Irã.
Mahmoud vestir uma camisa do Los Angeles Galaxy é como Condoleeza Rice estrelar um filme pornô. Seria impensável (e por que não dizer também, reconfortante? Para nosso próprio bem...). Esta “fantasia de Brasil” é o que faz o Brasil, Brazil.
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad odeia os EUA como o Zeca Pagodinho odeia cerveja sem álcool. Mahmoud abomina os judeus com a mesma intensidade. E daí? Ele tem uma paixão (e agora uma camisa) pelo Flamengo. E é isto que importa.
Do modo como anda a carruagem (ou o carro bomba), pode até ser que, após vestir o manto rubro negro, Mahmoud decida subir o morro e beber cachaça. Ser flamengo ele já é. Apenas falta ter agora uma nega (o escuro da burkha não conta, que fique bem claro!) para alegria de Ben Jor.
Mahmoud Ahmadinejad vestir a camisa do mengão é a prova cabal e definitiva de que nosso país enseja a sina do exótico em sua verve: todos os gringos querem extrair um naco da alegoria extravagante made in Brazil. Não importa de que lugar do globo a criatura seja; sendo “estranja” qualquer um quer um pedaço da fatia da sobremesa exótica destes trópicos: desde o italiano cinquentão e seu inofensivo turismo sexual ou a sueca (que nessa altura do campeonato brasileiro já se encontra alvi-rubra devido ao sol escaldante) nas areias de Copacabana, ou seja ainda simplesmente o presidente do Irã.
Mahmoud vestir uma camisa do Los Angeles Galaxy é como Condoleeza Rice estrelar um filme pornô. Seria impensável (e por que não dizer também, reconfortante? Para nosso próprio bem...). Esta “fantasia de Brasil” é o que faz o Brasil, Brazil.
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad odeia os EUA como o Zeca Pagodinho odeia cerveja sem álcool. Mahmoud abomina os judeus com a mesma intensidade. E daí? Ele tem uma paixão (e agora uma camisa) pelo Flamengo. E é isto que importa.
Ainda sobre a Lei Seca
Desde que entrou em vigor, a Lei Seca tem dividido opiniões; existem os que se postam contra, outros que apóiam-na. Julgo desnecessário fazer apologia a qualquer um destes dois lados. Gostaria de centrar minha atenção em algo que freqüentemente tenho escutado por ai; assim centrarei meu foco na analise do seguinte discurso: “a lei é para quem não sabe beber. E o cidadão de bem, que sabe beber?”. Não me cabe criticar ou defender esta lei, isto não me interessa. Na minha opinião, o que é relevante é analisar este enunciado intrigante.
Que diabos viria a ser o “cidadão que sabe beber?”. Seria aquele que não urina nas calças durante a balada? Ou o que realiza –com pouco ou nenhum esforço - com as pernas “o quatro?”. Ou ainda seriam todos aqueles que colaram um adesivo em seu carro com dizeres do tipo: “sou motorista cidadão: sei beber”.
Será mesmo, que durante a embriaguez na (e da) madrugada alguém poderia alegar “saber beber”, sem trazer o mínimo de risco para si mesmo e terceiros? O que seria isto, este “saber beber?”. Quem poderia se postar como alguém que “sabe beber” e pode, portanto, dar partida em seu carro? O cidadão que “sabe beber” seria aquele que nunca se envolveu diretamente num acidente de carro?
O etilometro produz uma prova cabal, um fato concreto e cientifico. A legislação prevê sanções a quem resolver exceder na dose. Pois bem, apenas e tão somente alegar-se um “cidadão que sabe beber” é uma questão hermenêutica, algo muito mais complexo e abstrato que racionais dados numéricos. È um enunciado moral (ou imoral, conforme o caso e a cara de pau do “cidadão”).Alguns dizem que a Lei Seca veio para ficar. Outros, mais céticos, crêem que será mais um regulamento com vida curta, efêmero como amor de verão juvenil. Não sou futurólogo; não temos como saber acerca do devir. Neste momento, creio apenas que alegar que existem “homens que sabem beber e outros que não sabem beber” é um argumento ilógico, uma modalidade discursiva bem made in Brazil, com um temperinho bem ao gosto do jeitinho brasileiro. Como se no Brasil a cada nova questão polemica que surge precisássemos entrar num transe, num rompante macunaímico para sustentar nossas opiniões
Que diabos viria a ser o “cidadão que sabe beber?”. Seria aquele que não urina nas calças durante a balada? Ou o que realiza –com pouco ou nenhum esforço - com as pernas “o quatro?”. Ou ainda seriam todos aqueles que colaram um adesivo em seu carro com dizeres do tipo: “sou motorista cidadão: sei beber”.
Será mesmo, que durante a embriaguez na (e da) madrugada alguém poderia alegar “saber beber”, sem trazer o mínimo de risco para si mesmo e terceiros? O que seria isto, este “saber beber?”. Quem poderia se postar como alguém que “sabe beber” e pode, portanto, dar partida em seu carro? O cidadão que “sabe beber” seria aquele que nunca se envolveu diretamente num acidente de carro?
O etilometro produz uma prova cabal, um fato concreto e cientifico. A legislação prevê sanções a quem resolver exceder na dose. Pois bem, apenas e tão somente alegar-se um “cidadão que sabe beber” é uma questão hermenêutica, algo muito mais complexo e abstrato que racionais dados numéricos. È um enunciado moral (ou imoral, conforme o caso e a cara de pau do “cidadão”).Alguns dizem que a Lei Seca veio para ficar. Outros, mais céticos, crêem que será mais um regulamento com vida curta, efêmero como amor de verão juvenil. Não sou futurólogo; não temos como saber acerca do devir. Neste momento, creio apenas que alegar que existem “homens que sabem beber e outros que não sabem beber” é um argumento ilógico, uma modalidade discursiva bem made in Brazil, com um temperinho bem ao gosto do jeitinho brasileiro. Como se no Brasil a cada nova questão polemica que surge precisássemos entrar num transe, num rompante macunaímico para sustentar nossas opiniões
terça-feira, 15 de julho de 2008
Escarro no box
Tosse. Tosse. Tosse. Raaaaaathou. Ruuupth.
O sujeito cospe uma vez, no box do banheiro aquele líquido vistoso e viscoso que reluz na altura de seu pescoço. Escarro amarelo marrom, escorrendo lentamente.
Enquanto lava-se, o homem acompanha com excitação o corpo que cai. Enlanguescente catarro, ejaculado de sua garganta. O cuspe é amorfo, se pensado não em suas qualidades propriamente físicas, mas em seu conceito, no contexto. Em suma, é amorfo se pensado em sua matriz genética: Marlboro, caipirinha, "don't look back in anger", canhão de luz. Palavras não ditas. Ou ditas. Ou quase ditas. E outras tantas apenas salivadas.
O vapor passa a preencher por completo o ambiente. As costas daquele indivíduo já estão numa vermelhidão só, pelando de tão quente. O cuspe cai: hora esfrega-se como puta no azulejo, hora é lambido pelo cimento. Seu catarro é então agora passagem do tempo. Lei da física. E também da metafísica: o observador e também pai daquela cusparada é agora um pouco de Goya, pois não terminará sua limpeza corporal enquanto aquele esputo salivar não descansar no ralo metálico.
Ao encontrar o chão, a lágrima para de vez. Deixa-la onde está ou empurra-la com a ajuda d'agua será a questão futura daquele ser. Seu mais novo dilema.
O sujeito cospe uma vez, no box do banheiro aquele líquido vistoso e viscoso que reluz na altura de seu pescoço. Escarro amarelo marrom, escorrendo lentamente.
Enquanto lava-se, o homem acompanha com excitação o corpo que cai. Enlanguescente catarro, ejaculado de sua garganta. O cuspe é amorfo, se pensado não em suas qualidades propriamente físicas, mas em seu conceito, no contexto. Em suma, é amorfo se pensado em sua matriz genética: Marlboro, caipirinha, "don't look back in anger", canhão de luz. Palavras não ditas. Ou ditas. Ou quase ditas. E outras tantas apenas salivadas.
O vapor passa a preencher por completo o ambiente. As costas daquele indivíduo já estão numa vermelhidão só, pelando de tão quente. O cuspe cai: hora esfrega-se como puta no azulejo, hora é lambido pelo cimento. Seu catarro é então agora passagem do tempo. Lei da física. E também da metafísica: o observador e também pai daquela cusparada é agora um pouco de Goya, pois não terminará sua limpeza corporal enquanto aquele esputo salivar não descansar no ralo metálico.
Ao encontrar o chão, a lágrima para de vez. Deixa-la onde está ou empurra-la com a ajuda d'agua será a questão futura daquele ser. Seu mais novo dilema.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
O homem mostarda
Assujeitado. Pobre coitado. Caminha quase sem rumo naquela noite tépida. Com elegância discreta, chuta latinhas e cachorros enlatados que o encontram pela frente. A cidade é pura azia, adornada caprichosamente por bitucas e tampinhas em cada meio-fio amarelo. Alguém lhe pede fogo e pergunta as horas.
“Fogo não tenho. Faltam 15 para o tédio” responde mecanicamente o infeliz assujeitado.
Não é sisudo. Nunca o foi. Apenas não é. Nunca foi.
Deita-se alguns minutos à tarde; seu leito é de morte. Ordinariamente mortal. Morte diária, ordinária. Cada dia mais um pouco; cada dia vislumbra um pouco mais o fastidioso azul da vida. E aquela imensidão o consome, como batidas ritmadas do coração, ou do relógio. Tanto faz. Não é como Goya, a passagem do tempo não lhe faz questão.
E a vida é tão triste e insignificante quanto um dia nublado às cinco horas da tarde. Afinal de contas, seja Pedro, seja pedra, ou seja, padre tudo vai dar em nada.
Mas nem tudo são espinhos plúmbeos em sua não existência. Haja visto que em alguns momentos o cromático de uma alegria nervosa rompe-se em inesperadas tessituras... Seja no sorriso da mulher mal amada, seja no colorido das rosas roubadas. .
“Fogo não tenho. Faltam 15 para o tédio” responde mecanicamente o infeliz assujeitado.
Não é sisudo. Nunca o foi. Apenas não é. Nunca foi.
Deita-se alguns minutos à tarde; seu leito é de morte. Ordinariamente mortal. Morte diária, ordinária. Cada dia mais um pouco; cada dia vislumbra um pouco mais o fastidioso azul da vida. E aquela imensidão o consome, como batidas ritmadas do coração, ou do relógio. Tanto faz. Não é como Goya, a passagem do tempo não lhe faz questão.
E a vida é tão triste e insignificante quanto um dia nublado às cinco horas da tarde. Afinal de contas, seja Pedro, seja pedra, ou seja, padre tudo vai dar em nada.
Mas nem tudo são espinhos plúmbeos em sua não existência. Haja visto que em alguns momentos o cromático de uma alegria nervosa rompe-se em inesperadas tessituras... Seja no sorriso da mulher mal amada, seja no colorido das rosas roubadas. .
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Pensamento filosofico do dia (ou biscoito da sorte)
Se houvesse cadeira elétrica
Não haveria cerca elétrica.
Não haveria cerca elétrica.
25 anos
Meu amor. Mil amores. Que os vermes da terra devorem sem pressa teu ventre pragmático. Anseio ver tua derme marmórea ressecada, murcha sob o sol outonal. Não é nada pessoal. Não te culpo.
Tampouco teus hábitos serão recriminados neste instante: tu, ordinariamente bela, travestida em ternos sóbrios. Blindada em ternos túmidos. Jamais ternos tenros.
Teus perfumes em nada conspiraram para destino tão atroz, simplesmente dobram a esquina - já sabem o caminho de casa. Os olores matutinos, borrifados por todos os poros que te participam são ora sóbrios, ora sombrios.
Teu sorriso metalino transborda Know how, como se cada grama de alumínio retorcido soubesse tudo de antemão.
Antes que nos deixe em definitivo, devolva-me o Drummond que guardaste por meses ininterruptos na gaveta da apatia. Retire-o cuidadosamente de lá, deixe que pegue um pouco de ar. Feito isto, sorria um sorriso amarelo para ele. Apenas assim, ele poderá novamente poetar pelas suas próprias pernas; definitivamente desintoxicado da razão plena do lugar comum no qual tão demoradamente permaneceu acondicionado. E calado.
Desejo por fim, que tua ultima morada tenha como epigrafe, palavras cruas, cinzas e formais. Não se preocupe: sepultaremos lado a lado, na mesma vala, afeto e lógica.
E assim, enfim, poderemos descansar.
Tampouco teus hábitos serão recriminados neste instante: tu, ordinariamente bela, travestida em ternos sóbrios. Blindada em ternos túmidos. Jamais ternos tenros.
Teus perfumes em nada conspiraram para destino tão atroz, simplesmente dobram a esquina - já sabem o caminho de casa. Os olores matutinos, borrifados por todos os poros que te participam são ora sóbrios, ora sombrios.
Teu sorriso metalino transborda Know how, como se cada grama de alumínio retorcido soubesse tudo de antemão.
Antes que nos deixe em definitivo, devolva-me o Drummond que guardaste por meses ininterruptos na gaveta da apatia. Retire-o cuidadosamente de lá, deixe que pegue um pouco de ar. Feito isto, sorria um sorriso amarelo para ele. Apenas assim, ele poderá novamente poetar pelas suas próprias pernas; definitivamente desintoxicado da razão plena do lugar comum no qual tão demoradamente permaneceu acondicionado. E calado.
Desejo por fim, que tua ultima morada tenha como epigrafe, palavras cruas, cinzas e formais. Não se preocupe: sepultaremos lado a lado, na mesma vala, afeto e lógica.
E assim, enfim, poderemos descansar.
domingo, 15 de junho de 2008
Bloco humano.
A televisão no centro da sala faz parte de um altar doméstico. A interferência da família ainda existia, é Clero; o que não impedia, contudo, Luís de estruturar-se numa lógica binária que custava caro, a ele e a sua família.
Durante a semana: pedreiro. Peão de obras. O picaresco analfabeto funcional que assoviava para todas as loiras de farmácia que faziam o carnaval da obra. Assoviava. Ou pitava seu Classic, cigarro não menos falsificado que suas divas louras oxigenadas, musas de cabelos dourados e pentelhos negros que coloriam tão vividamente o mundo cinza e calcinado do operário. Desnecessário dizer que, seu pulmão proletário gradualmente acostumara-se àquelas tragadas paraguaias.
O único agrado à sua derme marrom vinha de seu Avanço; Luís abençoava seus poros com um tubo quinzenal de desodorante. E acompanhando seus olores artificiais, o operário ostentava ainda um esperançoso bigodinho ralo no melhor estilo PCC. Este era o Luís de segunda a sexta-feira, operário, operado pelo sistema e abundante em privações. Mas também alegre e minimamente extrovertido.
Súbito como delirius tremens, o fim de semana dividia de maneira amarga sua persona: seu outro lado batia na soleira da porta de seu barraco todo o fim de sexta-feira.
Deixava de ser mandado no sábado. Deixava de ser cagado pelo seu superior no curral de obras. No fim de semana (mim de semana) seu nome era consternação e deixava de ser olhado com desprezo e aversão pela madame no semáforo que num instante CLIC CLIC, travava sua porta enquanto Luís cortava as ruas com sua Barra Circular em dias de trabalho.
No vazio do deixar de ser (Luís) do fim de semana, não era mais cagado pelas classes A, B e C. Nestes dois dias de descanso, não descansava, cagava de pau. Seus filhos. Ou mulher(es).
Seus punhos –que por cinco dias a fio permaneciam engessados em meio a silêncio, cimento e desigualdade social - respondiam aos seus (não) verdugos a cada mim de semana. Nas fagulhas de Classic que marcavam sua propriedade – seus filhos – ou nos hematomas que minavam sua adorável patroa, Luís não era. A cada ato hostil desferido, Luís não era.
Emudecido como pedreiro, como homem. Sepultado num silêncio como um bloco sólido. Contudo, era corpo líquido em seus intermináveis dois dias de mim de semana: em seus vasos corriam desgosto, descontentamento, alienação, cachaça e rancor. Rancor de um Luís ninguém. Desventura de homem-bloco, ao mesmo tempo sólido e líquido.
Durante a semana: pedreiro. Peão de obras. O picaresco analfabeto funcional que assoviava para todas as loiras de farmácia que faziam o carnaval da obra. Assoviava. Ou pitava seu Classic, cigarro não menos falsificado que suas divas louras oxigenadas, musas de cabelos dourados e pentelhos negros que coloriam tão vividamente o mundo cinza e calcinado do operário. Desnecessário dizer que, seu pulmão proletário gradualmente acostumara-se àquelas tragadas paraguaias.
O único agrado à sua derme marrom vinha de seu Avanço; Luís abençoava seus poros com um tubo quinzenal de desodorante. E acompanhando seus olores artificiais, o operário ostentava ainda um esperançoso bigodinho ralo no melhor estilo PCC. Este era o Luís de segunda a sexta-feira, operário, operado pelo sistema e abundante em privações. Mas também alegre e minimamente extrovertido.
Súbito como delirius tremens, o fim de semana dividia de maneira amarga sua persona: seu outro lado batia na soleira da porta de seu barraco todo o fim de sexta-feira.
Deixava de ser mandado no sábado. Deixava de ser cagado pelo seu superior no curral de obras. No fim de semana (mim de semana) seu nome era consternação e deixava de ser olhado com desprezo e aversão pela madame no semáforo que num instante CLIC CLIC, travava sua porta enquanto Luís cortava as ruas com sua Barra Circular em dias de trabalho.
No vazio do deixar de ser (Luís) do fim de semana, não era mais cagado pelas classes A, B e C. Nestes dois dias de descanso, não descansava, cagava de pau. Seus filhos. Ou mulher(es).
Seus punhos –que por cinco dias a fio permaneciam engessados em meio a silêncio, cimento e desigualdade social - respondiam aos seus (não) verdugos a cada mim de semana. Nas fagulhas de Classic que marcavam sua propriedade – seus filhos – ou nos hematomas que minavam sua adorável patroa, Luís não era. A cada ato hostil desferido, Luís não era.
Emudecido como pedreiro, como homem. Sepultado num silêncio como um bloco sólido. Contudo, era corpo líquido em seus intermináveis dois dias de mim de semana: em seus vasos corriam desgosto, descontentamento, alienação, cachaça e rancor. Rancor de um Luís ninguém. Desventura de homem-bloco, ao mesmo tempo sólido e líquido.
Tudo era mais sublime que os pensamentos. Mas (nem) por isto naveguei noites a frio pelos portos seguros contaminados pelo vírus da Aids.
Por saber que a complexidade da vida social é reduzida a escolhas estruturais e binárias quero neste momento abandonar nossos sonhos. Vamos esquecer para sempre de lembrar que devemos abandonar também nossos filhos rosados, anjinhos que ainda nem existem e que trataremos de esquecer na porta da escola. Deixem que chorem suas lágrimas de abandono; ninguém ouvirá sua birra acanhada. Não temos nada mais a ver com isso.
Vamos permanecer omissos, apáticos, deixando que o domingo acabe, fenecendo em silêncio e dando com isso provas cabais da finitude humana. Que o domingo apague! Deus está morto mesmo. Deixe que o domingo vele–O e a segunda-feira chore por Ele. Quase dor, quase onda. A sonora chuva traz o frio da fêmea, linda camponesa.
Violeta, violenta. Vil. Vinho.
Por saber que a complexidade da vida social é reduzida a escolhas estruturais e binárias quero neste momento abandonar nossos sonhos. Vamos esquecer para sempre de lembrar que devemos abandonar também nossos filhos rosados, anjinhos que ainda nem existem e que trataremos de esquecer na porta da escola. Deixem que chorem suas lágrimas de abandono; ninguém ouvirá sua birra acanhada. Não temos nada mais a ver com isso.
Vamos permanecer omissos, apáticos, deixando que o domingo acabe, fenecendo em silêncio e dando com isso provas cabais da finitude humana. Que o domingo apague! Deus está morto mesmo. Deixe que o domingo vele–O e a segunda-feira chore por Ele. Quase dor, quase onda. A sonora chuva traz o frio da fêmea, linda camponesa.
Violeta, violenta. Vil. Vinho.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Um pecado expiado na mata
E todo aquele sangue choroso amontoado sobre a mata? Sangue santo. Sangue purificado.
Sangue outrora virginal, que já fora um dia imaculado. O mesmo vermelho que tempos depois, pululava por entre as veias de alguém que, segundo os demais “já não presta mais”.
A prostituta morta redimida. Redimida depois de morta. Seus pecados foram expiados no silên(cio) da mata. E todos aqueles que até então lançavam olhares ruminantes de pura desaprovação, agora velam por aquele corpo santo sem vida, guardam com carinho aquela estrela. No sereno da noite validam uma carne, um sangue que sangra sem fim naquela clareira.
Os rostos curvados em respeitoso abatimento trazem a redenção para onde antes havia apenas desprezo e indiferença. Zelam agora por uma carne morta que outrora trouxera tantos prazeres para aquela comunidade. Silenciam. Alguns – poucos – soluçam.
E aquela mulher, que em outra feita foi amadorismo, profissionalismo, ou distração fugaz, ou saliva, ouvido, lágrimas encarna – encorpa - agora o corpo coletivo.
No correr da noite, as demais mulheres irão despi-la pela última vez. A nudez da puta desnuda a individualidade de cada homem, mulher e criança daquela comunidade.
A vela é acesa. Os cantos ecoam naquela penumbra de uma terra de ninguém (mas que naquele momento solene de morbidez total é terreno de todos). E agora é tudo tão puro. E agora é tudo tão bíblico, sagrado, sangrado.
Sangue outrora virginal, que já fora um dia imaculado. O mesmo vermelho que tempos depois, pululava por entre as veias de alguém que, segundo os demais “já não presta mais”.
A prostituta morta redimida. Redimida depois de morta. Seus pecados foram expiados no silên(cio) da mata. E todos aqueles que até então lançavam olhares ruminantes de pura desaprovação, agora velam por aquele corpo santo sem vida, guardam com carinho aquela estrela. No sereno da noite validam uma carne, um sangue que sangra sem fim naquela clareira.
Os rostos curvados em respeitoso abatimento trazem a redenção para onde antes havia apenas desprezo e indiferença. Zelam agora por uma carne morta que outrora trouxera tantos prazeres para aquela comunidade. Silenciam. Alguns – poucos – soluçam.
E aquela mulher, que em outra feita foi amadorismo, profissionalismo, ou distração fugaz, ou saliva, ouvido, lágrimas encarna – encorpa - agora o corpo coletivo.
No correr da noite, as demais mulheres irão despi-la pela última vez. A nudez da puta desnuda a individualidade de cada homem, mulher e criança daquela comunidade.
A vela é acesa. Os cantos ecoam naquela penumbra de uma terra de ninguém (mas que naquele momento solene de morbidez total é terreno de todos). E agora é tudo tão puro. E agora é tudo tão bíblico, sagrado, sangrado.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
A fuligem perfuma o ar, enquanto as flores artificiais florescem caladas na lareira. Shhhhh!! As fotos não mais entrecortam os cristais da memória, que encontram-se (des)cuidadosamente dispostos sobre a mesa; dispostos ao longo daquela fria carne de marmore, sem ordenação sentimental alguma.
A velha se distrai hipnotizada pelo efêmero circo televisivo, naqueles desvanescentes devaneios dos folhetins da vida, ordinários que tão só.
E tão só, o menino encontra-se ( contudo, não se encontra) em assombros gélidos que recortam o ar e a realidade. Dia após dia, o jovem recorda a realidade, num eterno inquieto, quieto, desfazer, disposto em mil direções. E é tudo tão suculento. E é tudo tão cinzento.
E tudo isto e mais, muito mais, neste tragicômico festim: jogamos as serpentinas do mesmo modo que enxugamos com um regaço o inquieto tristealegre suor que brota a todo instante em nossa alma.
A velha se distrai hipnotizada pelo efêmero circo televisivo, naqueles desvanescentes devaneios dos folhetins da vida, ordinários que tão só.
E tão só, o menino encontra-se ( contudo, não se encontra) em assombros gélidos que recortam o ar e a realidade. Dia após dia, o jovem recorda a realidade, num eterno inquieto, quieto, desfazer, disposto em mil direções. E é tudo tão suculento. E é tudo tão cinzento.
E tudo isto e mais, muito mais, neste tragicômico festim: jogamos as serpentinas do mesmo modo que enxugamos com um regaço o inquieto tristealegre suor que brota a todo instante em nossa alma.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Para Juliana
Nestes trópicos, vestirei teu manto borgiano. Pintarei minha face com teu colorido mítico-fantástico. Buscarei também sorrir o teu sorriso. Posso constatar por antecipação que, vou adorar adornar a face cinzenta da realidade com o véu da fantasia.
Assim, neste ambiente propício faremos sempre da vida um musical (para isso, pinçaremos suavemente as metáforas que pairam nas nuvens mais distantes).
E depois de tudo isto, seremos Barroco. Rococó. Art nouveau.
(ou kitsch).
Além, é claro, de nos tornarmos expressionismo alemão nos dias mais úmidos de Agosto.
E nos substratos fragmentados do ordinário de uma vida a dois, faremos uma mistura nonsense: acrescer 2 colheres de temper cheese e deixar em banho maria por cerca de 45 minutos. Levar ao forno.
E pronto: vamos endoidecer o tédio.
Assim, neste ambiente propício faremos sempre da vida um musical (para isso, pinçaremos suavemente as metáforas que pairam nas nuvens mais distantes).
E depois de tudo isto, seremos Barroco. Rococó. Art nouveau.
(ou kitsch).
Além, é claro, de nos tornarmos expressionismo alemão nos dias mais úmidos de Agosto.
E nos substratos fragmentados do ordinário de uma vida a dois, faremos uma mistura nonsense: acrescer 2 colheres de temper cheese e deixar em banho maria por cerca de 45 minutos. Levar ao forno.
E pronto: vamos endoidecer o tédio.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
A cena cultural ijuiense
A cena cultural ijuiense
Cena I
9 de maio. Sexta-feira à noite. Um prazeroso debate acerca do Haicai no anfiteatro do Sesc. Umas doze pessoas como espectadores. Não mais. E o mais constrangedor: Lá estava Ricardo Silvestrini, um dos poetas mais prestigiados do circuito nacional.
Cena II
Qualquer dia de maio. Qualquer dia do ano. Uma criatura qualquer reclamando da falta de programas culturais nesta cidade; lamentando que o que existe é sempre o “mais do mesmo”.
Constantemente, me deparo com as duas cenas antagônicas acima citadas. Destes dois eventos opostos posso dizer que: certamente, concordo que o Poder Executivo tem uma concepção ingênua e/ou provinciana a respeito dos eventos culturais; ou seja, uma visão limitada da gama total das manifestações culturais (vide Expo-Ijuí, fechar a praça para um grupo nativista qualquer e acabou). Contudo, simplesmente permanecer engessado numa crítica referente à incapacidade do Poder Público em promover diversidade cultural seria adotar uma posição comodista; simplesmente acomodar-se no sofá tecendo críticas verborrágicas e nada fazer a respeito.
Pois bem: existe vida (cultural) além grupos nativistas! Basta olharmos para adiante de nosso próprio umbigo/comodista/reclamão: a universidade e o Sesc são bons exemplos de diversidade cultural. Ambas instituições cumprem importante função social e cultural para com os ijuienses. Citarei um exemplo prático: basta lembrarmos que numa mesma semana, a Unijuí trouxe Sérgio Lessa (Universidade Federal de Alagoas) para debater “Marx e Mészáros: o Capital ontem e hoje”. Três dias depois o Sesc nos brinda com as importantes contribuições de Ricardo Silvestrini sobre o Haicai.
Programação cultural existe. Infelizmente, os eventos são – em alguns casos – muito mal divulgados. Assim, prestigiar a fala de um poeta do calibre de Silvestrini ficou sob a responsabilidade (e deleite) de uns doze gatos pingados.
Prefiro adotar a alegoria de um ser ingênuo para pensar que a cena cultural ijuiense coloca-se desta maneira, em virtude de uma má divulgação e não em razão da alienação cultural que aflige vasta gama da população. Faço opção por esta teoria quimérica a fim de não pensar na hipótese de alienação, sintoma universal da mass media, sintomão cada vez mais freqüente no seio da rés televisiva.
E para ninguém dizer que fui apenas crítica no corpo do texto, deixo aqui um convite (provocação) a todos, uma dica de agenda cultural: todo último sábado do mês, ocorre na sede do Sinpro o “Cine Cabeça”, cinema de qualidade com entrada franca. Façamos então uma cena cultural realmente heterogênea nesta cidade. Façamos a diferença experimentando novas programações, fugindo um pouco do “mais do mesmo”.
Cena I
9 de maio. Sexta-feira à noite. Um prazeroso debate acerca do Haicai no anfiteatro do Sesc. Umas doze pessoas como espectadores. Não mais. E o mais constrangedor: Lá estava Ricardo Silvestrini, um dos poetas mais prestigiados do circuito nacional.
Cena II
Qualquer dia de maio. Qualquer dia do ano. Uma criatura qualquer reclamando da falta de programas culturais nesta cidade; lamentando que o que existe é sempre o “mais do mesmo”.
Constantemente, me deparo com as duas cenas antagônicas acima citadas. Destes dois eventos opostos posso dizer que: certamente, concordo que o Poder Executivo tem uma concepção ingênua e/ou provinciana a respeito dos eventos culturais; ou seja, uma visão limitada da gama total das manifestações culturais (vide Expo-Ijuí, fechar a praça para um grupo nativista qualquer e acabou). Contudo, simplesmente permanecer engessado numa crítica referente à incapacidade do Poder Público em promover diversidade cultural seria adotar uma posição comodista; simplesmente acomodar-se no sofá tecendo críticas verborrágicas e nada fazer a respeito.
Pois bem: existe vida (cultural) além grupos nativistas! Basta olharmos para adiante de nosso próprio umbigo/comodista/reclamão: a universidade e o Sesc são bons exemplos de diversidade cultural. Ambas instituições cumprem importante função social e cultural para com os ijuienses. Citarei um exemplo prático: basta lembrarmos que numa mesma semana, a Unijuí trouxe Sérgio Lessa (Universidade Federal de Alagoas) para debater “Marx e Mészáros: o Capital ontem e hoje”. Três dias depois o Sesc nos brinda com as importantes contribuições de Ricardo Silvestrini sobre o Haicai.
Programação cultural existe. Infelizmente, os eventos são – em alguns casos – muito mal divulgados. Assim, prestigiar a fala de um poeta do calibre de Silvestrini ficou sob a responsabilidade (e deleite) de uns doze gatos pingados.
Prefiro adotar a alegoria de um ser ingênuo para pensar que a cena cultural ijuiense coloca-se desta maneira, em virtude de uma má divulgação e não em razão da alienação cultural que aflige vasta gama da população. Faço opção por esta teoria quimérica a fim de não pensar na hipótese de alienação, sintoma universal da mass media, sintomão cada vez mais freqüente no seio da rés televisiva.
E para ninguém dizer que fui apenas crítica no corpo do texto, deixo aqui um convite (provocação) a todos, uma dica de agenda cultural: todo último sábado do mês, ocorre na sede do Sinpro o “Cine Cabeça”, cinema de qualidade com entrada franca. Façamos então uma cena cultural realmente heterogênea nesta cidade. Façamos a diferença experimentando novas programações, fugindo um pouco do “mais do mesmo”.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Poema alcoolico (ou "Doce eram os tempos que antecederam a Lei Maria da Penha")
Encheu a cara
de cerveja
Encheu a Clara
de porrada
de cerveja
Encheu a Clara
de porrada
segunda-feira, 21 de abril de 2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Mitologia Rosiana & Mitologia Brotheriana
Os herois do Cazuza morreram de overdose. Bons tempos aqueles, não? E atualmente? Como perecem nossos heróis, na dita sociedade do narcisismo? Arrisco apenas e tão somente um palpite: nossos ícones atuais podem até morrer de overdose, contudo, tal dose cavalar de veneno só pode advir de uma superdose de crack.
Explico-me: nossos heróis midiaticos possuem em seu cerne um prazo de validade absurdamente curto - geralmente de apenas um ano. Alguns, assemelham-se aos iogurtes das gondolas de supermercado, duram lá seus 4 ou 5 meses. Não mais. Com efeito, os mitos televisivos são tão efêmeros quanto a fumaça tragada de um cachimbo de crack; tal como o viciado "na pedra" , os ícones concebidos ao bel prazer por uma industria midiatica- e consumidos com igual intensidade por uma massa voraz- não poderão gozar de uma vida longa e próspera.
O crackeiro- dado o poder aniquilador exercido por sua droga- trilhará em sua errância, geralmetne, por apenas dois caminhos: a cadeia ou o cemitério. De maneira análoga, o herói midiático também depara-se com duas vicissitudes distintas: o cemitério ou o ostracismo. O ostracismo é o lado amargo do show business; qualquer ícone iogurte foge deste destino atroz como a Condoleezza Rice foge da cruz. Ninguém deseja travestir-se de modess usado lançado ao lixo; os entes midiáticos querem, ao contrário, parasitear a mídia, exercer todo o seu talento dramático nos folhetins da vida, ou em última instância apenas comunicar ao léu seus "projetos em andamento".
Os mitos do efêmero também possuem sentimentos: como qualquer um eles também desejam ser vistos, ouvidos e consumidos. Adianto mais: por mais démodé que possa parecer também querem utilizar a mídia para comunicar que a palavra mais bonita presente na língua portuguesa
é saudade, bem como bradar aos quatro ventos: "libertem o Tibet".
Pensar nestes heróis fast food, é inevitavelmente pensar no BBB. Desde a criação (ou recriação, nos padrões Pedro Bial da picaretagem) deste programa, algo sempre emerge em minha mente: a vida pós-BBB seguramente deve incluir em seu pacote, acompanhamento psiquiátrico ou psicológico para todos os brothers; deve-se oferecer alento psiquico para uma vida que voltará à sua normalidade, que ao invés de câmaras e milhões de brasileiros vigiando haverá apenas o tédio da vida cotidiana. O ostracismo pode exercer uma função terrivelmente sádica e desconcertante em mentes menos preparadas para retornar a uma vida comum.
E para todos aqueles que se deparam com este texto verborrágico e babaca, faço aqui minha mea culpa evocando ninguém menos que o Pedro Bial em sua defesa do programa BBB. Para o apresentador o reality show não tem nadade anti-cultural, pois segundo Bial, o Big Brother Brasil é tão cultural quanto Guimarães Rosa. Cada um tem o direito de pensar como quiser, ninguém será executado sumariamente num tosco paredão.
Explico-me: nossos heróis midiaticos possuem em seu cerne um prazo de validade absurdamente curto - geralmente de apenas um ano. Alguns, assemelham-se aos iogurtes das gondolas de supermercado, duram lá seus 4 ou 5 meses. Não mais. Com efeito, os mitos televisivos são tão efêmeros quanto a fumaça tragada de um cachimbo de crack; tal como o viciado "na pedra" , os ícones concebidos ao bel prazer por uma industria midiatica- e consumidos com igual intensidade por uma massa voraz- não poderão gozar de uma vida longa e próspera.
O crackeiro- dado o poder aniquilador exercido por sua droga- trilhará em sua errância, geralmetne, por apenas dois caminhos: a cadeia ou o cemitério. De maneira análoga, o herói midiático também depara-se com duas vicissitudes distintas: o cemitério ou o ostracismo. O ostracismo é o lado amargo do show business; qualquer ícone iogurte foge deste destino atroz como a Condoleezza Rice foge da cruz. Ninguém deseja travestir-se de modess usado lançado ao lixo; os entes midiáticos querem, ao contrário, parasitear a mídia, exercer todo o seu talento dramático nos folhetins da vida, ou em última instância apenas comunicar ao léu seus "projetos em andamento".
Os mitos do efêmero também possuem sentimentos: como qualquer um eles também desejam ser vistos, ouvidos e consumidos. Adianto mais: por mais démodé que possa parecer também querem utilizar a mídia para comunicar que a palavra mais bonita presente na língua portuguesa
é saudade, bem como bradar aos quatro ventos: "libertem o Tibet".
Pensar nestes heróis fast food, é inevitavelmente pensar no BBB. Desde a criação (ou recriação, nos padrões Pedro Bial da picaretagem) deste programa, algo sempre emerge em minha mente: a vida pós-BBB seguramente deve incluir em seu pacote, acompanhamento psiquiátrico ou psicológico para todos os brothers; deve-se oferecer alento psiquico para uma vida que voltará à sua normalidade, que ao invés de câmaras e milhões de brasileiros vigiando haverá apenas o tédio da vida cotidiana. O ostracismo pode exercer uma função terrivelmente sádica e desconcertante em mentes menos preparadas para retornar a uma vida comum.
E para todos aqueles que se deparam com este texto verborrágico e babaca, faço aqui minha mea culpa evocando ninguém menos que o Pedro Bial em sua defesa do programa BBB. Para o apresentador o reality show não tem nadade anti-cultural, pois segundo Bial, o Big Brother Brasil é tão cultural quanto Guimarães Rosa. Cada um tem o direito de pensar como quiser, ninguém será executado sumariamente num tosco paredão.
sábado, 12 de abril de 2008
Gadget de 100 e poucos quilos
Jô Soares tornou-se nos últimos anos, um clichê de si mesmo. Foi-se o tempo do beijo do gordo. Não vou mais para a cama com ele. Não faço mais nenhuma questão: atualmente, o gordo é apenas mais um produto da mass media, apenas mais um dos tantos gadgets que encontramos por ai, ou seja, um produto para todos aqueles que desejam consumir algo que possa conceder ares de intelectualidade. Jô Soares é meu chaveirinho de bolso.
É incrível como este volumoso apresentador utiliza todo eu bojo cultural de maneira tão equivocada: constato estarrecido que Jô Soares não deseja compartilhar o que sabe, mas sim, mostrar que sabe. O gordo peca também no papel de entrevistador, na medida em que pouco deixa seu(s) convidado(s) falar(em). Em muitos casos, a fim de demonstrar seu humor (duvidoso) alcança níveis de um descabido pedantismo: sua verve humorística adquire uma natureza iconoclasta fora de contexto. Contudo, o dono do talk sohw mais cult (?) do país pode se portar de maneira amigável diante de seus convidados. Mais que isto: em certos momentos, em algumas entrevistas (inevitável não evocar Ziraldo neste momento) Jô Soares assume uma tônica de puro puxa-saquismo. Mamães tirem nossas crianças da sala.
Mais interessante que Jô Soares, somente seu publico: tão rococó. Tão mass media. Não estou aqui, batendo cartão ponto para posar de vigilante estético, cabe apenas atentar para o fato de que a essência do que poderíamos definir como “cult” no programa do Jô Soares é totalmente falsa. Um cult deveras fake. Em minha opinião, assistir ao gordo equivale a tomar uma Bohemia. A cerveja Bohemia, já foi um dia muito saborosa. Jô Soares, antigamente, também tinha seus momentos. Contudo, atualmente, ambos tornaram-se produtos intragáveis. Mais ainda: Bohemia e Jô Soares tornaram-se traduções, significantes do esnobismo: como se ambos os produtos orgânicos (o composto de cevada e o composto de grande concentração de tecido adiposo) cumprissem um papel de “imperativo categórico”, ou seja, como se ambos os produtos trouxessem um selo que garantisse algo da ordem do refinamento. Do cool. O Isso 9000 do que é ou não bacana.
Para não fazer macartismos & macaquismos televisivos, e dizer por ai que nada presta, indico humildemente dois outros entrevistadores (que poucos conhecem por sinal): Michel Melamed e Antonio Abujamra. Cada qual – à sua maneira- funciona como um antídoto para o imbecilizante mundo global. Colocam Jô Soares no Bolso. Tal qual meu chaveiro.
É incrível como este volumoso apresentador utiliza todo eu bojo cultural de maneira tão equivocada: constato estarrecido que Jô Soares não deseja compartilhar o que sabe, mas sim, mostrar que sabe. O gordo peca também no papel de entrevistador, na medida em que pouco deixa seu(s) convidado(s) falar(em). Em muitos casos, a fim de demonstrar seu humor (duvidoso) alcança níveis de um descabido pedantismo: sua verve humorística adquire uma natureza iconoclasta fora de contexto. Contudo, o dono do talk sohw mais cult (?) do país pode se portar de maneira amigável diante de seus convidados. Mais que isto: em certos momentos, em algumas entrevistas (inevitável não evocar Ziraldo neste momento) Jô Soares assume uma tônica de puro puxa-saquismo. Mamães tirem nossas crianças da sala.
Mais interessante que Jô Soares, somente seu publico: tão rococó. Tão mass media. Não estou aqui, batendo cartão ponto para posar de vigilante estético, cabe apenas atentar para o fato de que a essência do que poderíamos definir como “cult” no programa do Jô Soares é totalmente falsa. Um cult deveras fake. Em minha opinião, assistir ao gordo equivale a tomar uma Bohemia. A cerveja Bohemia, já foi um dia muito saborosa. Jô Soares, antigamente, também tinha seus momentos. Contudo, atualmente, ambos tornaram-se produtos intragáveis. Mais ainda: Bohemia e Jô Soares tornaram-se traduções, significantes do esnobismo: como se ambos os produtos orgânicos (o composto de cevada e o composto de grande concentração de tecido adiposo) cumprissem um papel de “imperativo categórico”, ou seja, como se ambos os produtos trouxessem um selo que garantisse algo da ordem do refinamento. Do cool. O Isso 9000 do que é ou não bacana.
Para não fazer macartismos & macaquismos televisivos, e dizer por ai que nada presta, indico humildemente dois outros entrevistadores (que poucos conhecem por sinal): Michel Melamed e Antonio Abujamra. Cada qual – à sua maneira- funciona como um antídoto para o imbecilizante mundo global. Colocam Jô Soares no Bolso. Tal qual meu chaveiro.
domingo, 6 de abril de 2008
terça-feira, 25 de março de 2008
MATERIAL FECAL II
Cada indivíduo tece uma relação íntima e particular com seus resíduos orgânicos; a forma com que cada um ente lida com seus restos pertence à mais alta (ordem) privada. Com efeito, sentimos verdadeiro asco ao nos depararmos com o material escatológico dos demais indivíduos – a privada quebrada do banheiro de uma churrascaria é prova cabal deste fenômeno. Contudo, possuímos uma relação de naturalidade com o material orgânico por nós produzidos: Sigmund Freud debruçou-se detidamente nos estudos da analidade infantil.
Sempre me fascinou a relação tecida do Rei Roberto Carlos com seu material fecal. Com efeito, o cantor ajudou a tornar famoso o termo psiquiátrico TOC – ou Transtorno Obsessivo Compulsivo. Podemos dizer que, nosso astro mor, conferiu ao TOC uma certa charmosidade, propiciou um toque cool ao TOC.
O TOC encontra-se devidamente catalogado nos manuais psiquiátricos como o DSM. Contudo, para a psicanálise, poderíamos situar o discurso do Rei – suas falas apoiadas no discurso TOC – como fenômeno oriundo de um sujeito neurótico obsessivo (ou NO para os amantes incondicionais das siglas). Partindo da premissa de que: “sim, Roberto Carlos – o tesão das empregadas domésticas dos anos 70/80 é sim um NO (ou TOC)” analiso – à guisa da psicanálise - dois sintomas obsessivos do cantor atrelados à questão da analidade.
A primeira prova cabal disto, é o refrão de uma das músicas do Rei: “estou guardando o que há de bom em mim”. Basta lemos Freud para constatarmos que a retenção fecal propicia imenso prazer às criancinhas; tais criaturinhas retêm tanto o quanto podem o seu cocô, para posteriormente, sentirem o máximo de prazer ao defecar (isto para não falarmos nas famosas equações simbólicas freudianas: fezes = dinheiro / fezes = crianças etc).
A outra peculiaridade interessante apresentada pelo Rei refere-se às suas exigências contratuais. Com efeito, Roberto Carlos não é um artista comum: transcende as exigências banais dos demais artistas (vide toalhinhas brancas e/ou água mineral francesa no camarim). Roberto Carlos é único. Sua exigência é também única: o artista transporta seu próprio banheiro para as turnês. Sim, é isto mesmo! Além do usual camarim, o Rei leva consigo seu contêiner-banheiro. Seu troninho particular... È neste local sacro, real, que Roberto Carlos deposita seu cocozinho. Nada de deixar seus pedacinhos espalhados em locais desconhecidos. NÃO. Roberto Carlos sabe onde pisa (e também onde caga).
Assim, por estas e outras razões, mesmo que os pessimistas assinem embaixo pelo fim do orgulho brasileiro, ufano-me pelo meu País, ufano-me por minha Pátria. Deus abençoe nosso rei Roberto Carlos e nossa Rainha Xuxa Meneghel. Visto verde e amarelo e coloca minha mão no fogo para defender a honra de nossos tutores reais. Um viva ao positivismo, e ao lema Ordem e Progresso. Deus abençoe o cocozinho do Rei Roberto Carlos!
Sempre me fascinou a relação tecida do Rei Roberto Carlos com seu material fecal. Com efeito, o cantor ajudou a tornar famoso o termo psiquiátrico TOC – ou Transtorno Obsessivo Compulsivo. Podemos dizer que, nosso astro mor, conferiu ao TOC uma certa charmosidade, propiciou um toque cool ao TOC.
O TOC encontra-se devidamente catalogado nos manuais psiquiátricos como o DSM. Contudo, para a psicanálise, poderíamos situar o discurso do Rei – suas falas apoiadas no discurso TOC – como fenômeno oriundo de um sujeito neurótico obsessivo (ou NO para os amantes incondicionais das siglas). Partindo da premissa de que: “sim, Roberto Carlos – o tesão das empregadas domésticas dos anos 70/80 é sim um NO (ou TOC)” analiso – à guisa da psicanálise - dois sintomas obsessivos do cantor atrelados à questão da analidade.
A primeira prova cabal disto, é o refrão de uma das músicas do Rei: “estou guardando o que há de bom em mim”. Basta lemos Freud para constatarmos que a retenção fecal propicia imenso prazer às criancinhas; tais criaturinhas retêm tanto o quanto podem o seu cocô, para posteriormente, sentirem o máximo de prazer ao defecar (isto para não falarmos nas famosas equações simbólicas freudianas: fezes = dinheiro / fezes = crianças etc).
A outra peculiaridade interessante apresentada pelo Rei refere-se às suas exigências contratuais. Com efeito, Roberto Carlos não é um artista comum: transcende as exigências banais dos demais artistas (vide toalhinhas brancas e/ou água mineral francesa no camarim). Roberto Carlos é único. Sua exigência é também única: o artista transporta seu próprio banheiro para as turnês. Sim, é isto mesmo! Além do usual camarim, o Rei leva consigo seu contêiner-banheiro. Seu troninho particular... È neste local sacro, real, que Roberto Carlos deposita seu cocozinho. Nada de deixar seus pedacinhos espalhados em locais desconhecidos. NÃO. Roberto Carlos sabe onde pisa (e também onde caga).
Assim, por estas e outras razões, mesmo que os pessimistas assinem embaixo pelo fim do orgulho brasileiro, ufano-me pelo meu País, ufano-me por minha Pátria. Deus abençoe nosso rei Roberto Carlos e nossa Rainha Xuxa Meneghel. Visto verde e amarelo e coloca minha mão no fogo para defender a honra de nossos tutores reais. Um viva ao positivismo, e ao lema Ordem e Progresso. Deus abençoe o cocozinho do Rei Roberto Carlos!
MATERIAL FECAL I
O processo de sanitarização ainda não atingiu níveis satisfatórios em países como a Índia, é o que indicam os relatórios anuais da OMS. Uma excelente notícia! Ao menos para todos os scaravengers do país de Mahatma Gandhi: estas criaturinhas que sobrevivem recolhendo o material fecal deixado por todos em solo indiano; como neste país, apenas 33% das residências possui um sistema adequado de escoamento de resíduos, o que se vê, são cenas lamentáveis: desde mulheres carregando merda em cestos até homens adentrando e chafurdando em fossos de caldo fétido, correndo sério risco de contaminação e colocando sua saúde em perigo.
O sistema de casta indiano impossibilita a troca de profissão: uma vez scaravenger, sempre scaravenger. Este determinismo fatalista está tão incrustado na cultura indiana que faz com que pareça natural que alguns dos seus cidadãos carreguem bosta em cima da cabeça para lá e para cá o dia todo.Infelizmente (ao menos para os scaravengers), a OMS deseja instituir um complexo plano de sanitarização na Índia: universalização do acesso aos banheiros até 2012 é o que promete a Organização. Comecemos então a imaginar o funesto (porém, não mais fedorento) futuro próximo destes catadores de dejetos; será que tais criaturinhas perderiam seu propósito de vida ao perderem seu savoir faire? Haveriam protestos? Insurgências? Cartazes pelas ruas com dizeres tais como “QUEREMOS NOSSA BOSTA DE VOLTA!” Ou ainda “QUEREMOS A BOSTA DO NOSSO EMPREGO DE VOLTA”. É com imensa consternação que me debruço a esta hora da noite nestas linhas para protestar contra o plano de sanitarização a ser empregado na Índia: assim como no caso das moscas, aquela pasta orgânica denominada bosta é de vital importância para os scaravengers.
O sistema de casta indiano impossibilita a troca de profissão: uma vez scaravenger, sempre scaravenger. Este determinismo fatalista está tão incrustado na cultura indiana que faz com que pareça natural que alguns dos seus cidadãos carreguem bosta em cima da cabeça para lá e para cá o dia todo.Infelizmente (ao menos para os scaravengers), a OMS deseja instituir um complexo plano de sanitarização na Índia: universalização do acesso aos banheiros até 2012 é o que promete a Organização. Comecemos então a imaginar o funesto (porém, não mais fedorento) futuro próximo destes catadores de dejetos; será que tais criaturinhas perderiam seu propósito de vida ao perderem seu savoir faire? Haveriam protestos? Insurgências? Cartazes pelas ruas com dizeres tais como “QUEREMOS NOSSA BOSTA DE VOLTA!” Ou ainda “QUEREMOS A BOSTA DO NOSSO EMPREGO DE VOLTA”. É com imensa consternação que me debruço a esta hora da noite nestas linhas para protestar contra o plano de sanitarização a ser empregado na Índia: assim como no caso das moscas, aquela pasta orgânica denominada bosta é de vital importância para os scaravengers.
NOSSAS MENINAS
Lembro-me de como ele as chamava; referia-se a elas como “nossas meninas”. Na hora do jantar, com feição sisuda e gestos burocráticos perguntava: “por onde andam as nossas meninas?”. (Des)nescessário dizer que este homem era a vitória do pragmatismo e totalmente avesso à qualquer tipo de manifestação comportamental vinculadas à fenômenos nonsense.
Mesmo em seus meses finais quando ele já se encontrava macilento, fragilizado e, mesmo com reais dificuldades para sentar-se à mesa da cozinha (deslocar-se de um lugar a outro, configurava-se como uma atividade de esforço hercúleo) sempre sobrava uma brecha, um momento para questionar acerca do paradeiro de “suas meninas”. Todas as noites, esta pergunta se repetia. Sempre assim.
Contudo, o sempre assim também acaba. De uma hora para outra (ou decorrente alguns meses, no caso de um câncer). Logo, mas logo mesmo, “as meninas” deixaram de ser importantes para este homem enfermo. Não havia mais qualquer tipo de relevância em sua pergunta usual. Aliás, não havia nem mais sequer sua costumeira pergunta acerca “das meninas”. O homem não mais as convocava: sua saúde piorou, “as meninas” continuaram a se insinuar da mesma maneira que antes, contudo, para este homem que padecia de uma moléstia mortal, elas deixaram de existir, de se exibir. Subitamente (nem tanto assim) ele faleceu. Ainda hoje, nestes dias de verão, “as meninas”ainda aparecem por aqui. Quer ele pergunte ou não (ele já não o pode); quer ele as nomeando ou não (ele já não as batiza), “as meninas” aparecem. Figuram em todas as noites, em todas as jantas por volta das 19 horas. “Nossas meninas” (mas principalmente DELE) são graciosas lagartixas que desfilam pelo lado de fora da janela da cozinha...
Mesmo em seus meses finais quando ele já se encontrava macilento, fragilizado e, mesmo com reais dificuldades para sentar-se à mesa da cozinha (deslocar-se de um lugar a outro, configurava-se como uma atividade de esforço hercúleo) sempre sobrava uma brecha, um momento para questionar acerca do paradeiro de “suas meninas”. Todas as noites, esta pergunta se repetia. Sempre assim.
Contudo, o sempre assim também acaba. De uma hora para outra (ou decorrente alguns meses, no caso de um câncer). Logo, mas logo mesmo, “as meninas” deixaram de ser importantes para este homem enfermo. Não havia mais qualquer tipo de relevância em sua pergunta usual. Aliás, não havia nem mais sequer sua costumeira pergunta acerca “das meninas”. O homem não mais as convocava: sua saúde piorou, “as meninas” continuaram a se insinuar da mesma maneira que antes, contudo, para este homem que padecia de uma moléstia mortal, elas deixaram de existir, de se exibir. Subitamente (nem tanto assim) ele faleceu. Ainda hoje, nestes dias de verão, “as meninas”ainda aparecem por aqui. Quer ele pergunte ou não (ele já não o pode); quer ele as nomeando ou não (ele já não as batiza), “as meninas” aparecem. Figuram em todas as noites, em todas as jantas por volta das 19 horas. “Nossas meninas” (mas principalmente DELE) são graciosas lagartixas que desfilam pelo lado de fora da janela da cozinha...
ENTRELINHAS
Lucila prezava o hábito da leitura com verdadeiro fervor asceta. Mas não apenas isto. A garota de 20 e poucos anos amava as entrelinhas do livro: para além das intenções e abstrações do autor, Lucila primava principalmente pelo espaço do entre linhas. O branco vazio.
Quando nossa querida Lucila retirava um livro do acervo da biblioteca, seu prazer transcendia o simples hábito da leitura; com efeito, esta atividade encontrava-se para-além do prazer estético da recepção das idéias do autor de um determinado livro. Seu mais gozar referia-se ao hábito de ruminar acerca das entrelinhas. E ruminava mesmo!
Tais entrelinhas realmente faziam questão para a garota, eram impressões imagéticas de valor vital: “por que alguém sublinhou este parágrafo? por que diabos exatamente nesta página?” Perguntava-se Lucila.
A universitária desprendia enorme valor erótico ao elaborar seus questionamentos: “quem era este alguém (que chegou rabiscando tudo antes de mim)?” Seria o rabiscador um intelectual? Ou uma garota fútil cuja única preocupação acadêmica residia em tirar uma nota razoável na cadeira de Ética, para assim poder retornar à sua vida sem sentido, à sua felicidade paradoxal dada por seu armário embutido, suas novas aquisições da Ellus e finalmente à sua efêmera e frívola felicidade oriunda da combinação drink + vida noturna? Ou seria o pichador de livros uma bicha niilista? Importava-se este ente imaginado com o fato de estar danificando (com rabiscos e comentários pedantes e inócuos) propriedade coletiva?
Por que? O que? Onde? Quando? Como? Perguntas intermitentes na mente de Lucila. A menina ponderava que alguns destes rabiscadores desejavam simplesmente depositar a semente – seu esperma esferográfico – de suas idéias, uma espécie de “mapa da mina” para que os próximos locatários pudessem de alguma forma orientar-se no mundo perigoso e sedutor das entrelinhas. Havia, é claro, para a garota os não pichadores profissionais de livros; estes apenas estariam riscando linhas e mais linhas num ato de repetição maçante e mecânica; tal qual o lugar onde a vida imita a arte.
Sendo ou não um rabiscador profissional das entrelinhas, todos estas personagens ocupavam o universo de ruminações e devaneios de Lucila... Tais questões marcavam-na profundamente. E a garota, também marcava profundamente o texto; marcava sua sombra nas entrelinhas, sublinhava, sublinhava e sublinhava (sublimava)?
E Lucila perdurava em sua busca errante de estabelecer – a cada vazada de tinta - comunicação com o (virtual) predecessor da leitura do livro. Para tal feito, rabiscava forte, de forma decidida, a ponto de machucar a celulose. Tudo a fim de abrir caminho para Outrem. A desbravadora universitária sangrava reto (usava régua ou marcador de páginas) o papel munindo-se de tinta azul. Ou preta. Ou vermelha. MAS NUNCA caneta marca texto: esta luminosa tinta, não deixava espaço para o entrelinhas poder respirar e transar livremente. A caneta marcatexto seria estéril, o mecânico, o sem graça. A esferográfica, ao contrario, singrava sangrando o intertexto das entrelinhas de maneira graciosa (mesmo nos momentos de se quase chegar a rasgar o papel, tamanha a fúria depositada em tal feitura). Neste branco presente (ou ausente, tudo dependendo dos postulados perceptivos empregados daquele que avaliaria o citado espaço) encontrava-se a (vã) esperança de Lucila deparar-se com um ouvinte que pudesse tornar-se sua contraparte, sua voz irmã.
Assim, na devolução (ou ENTREGA, no sentido PLENO DO TERMO) de cada livro, um misto de alívio e apreensão. Por um lado, sensação de dever cumprido. Por outro, sentimento de inquietude. Desassossego frente a seus “futuros leitores”.
Pobre garota no fim das contas. A resolução dos mistérios que abarcavam as brancuras momentâneas e ortopédicas de sua vida – e de sua relação com o universo do livresco - não seriam sanadas nem hoje nem nunca. Mesmo procurando atentamente nas entrelinhas do contrato.
Quando nossa querida Lucila retirava um livro do acervo da biblioteca, seu prazer transcendia o simples hábito da leitura; com efeito, esta atividade encontrava-se para-além do prazer estético da recepção das idéias do autor de um determinado livro. Seu mais gozar referia-se ao hábito de ruminar acerca das entrelinhas. E ruminava mesmo!
Tais entrelinhas realmente faziam questão para a garota, eram impressões imagéticas de valor vital: “por que alguém sublinhou este parágrafo? por que diabos exatamente nesta página?” Perguntava-se Lucila.
A universitária desprendia enorme valor erótico ao elaborar seus questionamentos: “quem era este alguém (que chegou rabiscando tudo antes de mim)?” Seria o rabiscador um intelectual? Ou uma garota fútil cuja única preocupação acadêmica residia em tirar uma nota razoável na cadeira de Ética, para assim poder retornar à sua vida sem sentido, à sua felicidade paradoxal dada por seu armário embutido, suas novas aquisições da Ellus e finalmente à sua efêmera e frívola felicidade oriunda da combinação drink + vida noturna? Ou seria o pichador de livros uma bicha niilista? Importava-se este ente imaginado com o fato de estar danificando (com rabiscos e comentários pedantes e inócuos) propriedade coletiva?
Por que? O que? Onde? Quando? Como? Perguntas intermitentes na mente de Lucila. A menina ponderava que alguns destes rabiscadores desejavam simplesmente depositar a semente – seu esperma esferográfico – de suas idéias, uma espécie de “mapa da mina” para que os próximos locatários pudessem de alguma forma orientar-se no mundo perigoso e sedutor das entrelinhas. Havia, é claro, para a garota os não pichadores profissionais de livros; estes apenas estariam riscando linhas e mais linhas num ato de repetição maçante e mecânica; tal qual o lugar onde a vida imita a arte.
Sendo ou não um rabiscador profissional das entrelinhas, todos estas personagens ocupavam o universo de ruminações e devaneios de Lucila... Tais questões marcavam-na profundamente. E a garota, também marcava profundamente o texto; marcava sua sombra nas entrelinhas, sublinhava, sublinhava e sublinhava (sublimava)?
E Lucila perdurava em sua busca errante de estabelecer – a cada vazada de tinta - comunicação com o (virtual) predecessor da leitura do livro. Para tal feito, rabiscava forte, de forma decidida, a ponto de machucar a celulose. Tudo a fim de abrir caminho para Outrem. A desbravadora universitária sangrava reto (usava régua ou marcador de páginas) o papel munindo-se de tinta azul. Ou preta. Ou vermelha. MAS NUNCA caneta marca texto: esta luminosa tinta, não deixava espaço para o entrelinhas poder respirar e transar livremente. A caneta marcatexto seria estéril, o mecânico, o sem graça. A esferográfica, ao contrario, singrava sangrando o intertexto das entrelinhas de maneira graciosa (mesmo nos momentos de se quase chegar a rasgar o papel, tamanha a fúria depositada em tal feitura). Neste branco presente (ou ausente, tudo dependendo dos postulados perceptivos empregados daquele que avaliaria o citado espaço) encontrava-se a (vã) esperança de Lucila deparar-se com um ouvinte que pudesse tornar-se sua contraparte, sua voz irmã.
Assim, na devolução (ou ENTREGA, no sentido PLENO DO TERMO) de cada livro, um misto de alívio e apreensão. Por um lado, sensação de dever cumprido. Por outro, sentimento de inquietude. Desassossego frente a seus “futuros leitores”.
Pobre garota no fim das contas. A resolução dos mistérios que abarcavam as brancuras momentâneas e ortopédicas de sua vida – e de sua relação com o universo do livresco - não seriam sanadas nem hoje nem nunca. Mesmo procurando atentamente nas entrelinhas do contrato.
quarta-feira, 5 de março de 2008
Besta Sadia
Que falar do homem contemporâneo? Que podemos dizer desta criaturinha hiper-moderna, que certa feita pisou na lua, mas que, contudo, ainda tem um pé na caverna?
Ente paradoxal é o ser humano: fetichiza de modo voraz cada novo gadget lançado, mas que, ao mesmo tempo, faz cumprir religiosamente a cartilha rodriguiana de captar A vida como ela é em sua escatologia plena, erotizando pequenos detalhes corporeos, como o fedor de uma axila. O mesmo ser humano, realizador das mais complexas operações, traz à baila também o grotesco, satisfazendo-se com o que há de mais rudimentar, tal como o suor, o esperma, o mijo, e a merda.
Detalhes banais, oriundos de uma vida ordinária compõe o roteiro existencial desta (ordinária?) criatura denominada ser humano. A inspiração, o requinte, a educação - preceitos apreciados por todospara uma boa convivencia - convivem em harmonia (muitas vezes nem tanto, é claro) com o escatologico, ou, nas palavras do poeta "você chora e fede como todo mundo".
O homem civilizado pode tornar-se arcaico (e vice-versa) num curto intervalo temporal; o coito anal é um exemplo disso: algo que propiciou a determinado casal extremo prazer durante uma madrugada, tende a ser evitado nas horas posteriores; com efeito, aquele mesmo objeto, alvo de toda a libido durante a calada da noite, perde o status de "rabo" (ou como lá diabos "cada dois" irá chamá-lo) para tornar-se um mero "ânus" ao meio-dia.
O ente hiper-moderno descobriu a penicilina e mapeou o genoma humano mas, ao mesmo tempo, ainda urra, briga, mata, filia-se a torcidas organizadas e vota no PT.
Contudo, não me debruço em linhas fatalistas para simplesmente condenar o caráter dualista do homem; não devemos encarar os elementos arcaicos do ente como chagas, aspectos negativos da existencia humana. Devemos, ao contrário, aceitar com naturalidade este lado bestial, conferindo um estatuto estético ao grotesco, para não cairmos numa "sindrome de Jô Soares" e nos sentirmos demasiadamente divinos. Se assim não o fosse - se não tivessemos tais elementos arcaicos em nossa constituição - a socialite não sentiria tesão com o fedor exalado pelo mecânico em sua imunda oficina, nem tampouco praguejariamos aos céus ao martelar nosso dedo ao invés do prego.
Ente paradoxal é o ser humano: fetichiza de modo voraz cada novo gadget lançado, mas que, ao mesmo tempo, faz cumprir religiosamente a cartilha rodriguiana de captar A vida como ela é em sua escatologia plena, erotizando pequenos detalhes corporeos, como o fedor de uma axila. O mesmo ser humano, realizador das mais complexas operações, traz à baila também o grotesco, satisfazendo-se com o que há de mais rudimentar, tal como o suor, o esperma, o mijo, e a merda.
Detalhes banais, oriundos de uma vida ordinária compõe o roteiro existencial desta (ordinária?) criatura denominada ser humano. A inspiração, o requinte, a educação - preceitos apreciados por todospara uma boa convivencia - convivem em harmonia (muitas vezes nem tanto, é claro) com o escatologico, ou, nas palavras do poeta "você chora e fede como todo mundo".
O homem civilizado pode tornar-se arcaico (e vice-versa) num curto intervalo temporal; o coito anal é um exemplo disso: algo que propiciou a determinado casal extremo prazer durante uma madrugada, tende a ser evitado nas horas posteriores; com efeito, aquele mesmo objeto, alvo de toda a libido durante a calada da noite, perde o status de "rabo" (ou como lá diabos "cada dois" irá chamá-lo) para tornar-se um mero "ânus" ao meio-dia.
O ente hiper-moderno descobriu a penicilina e mapeou o genoma humano mas, ao mesmo tempo, ainda urra, briga, mata, filia-se a torcidas organizadas e vota no PT.
Contudo, não me debruço em linhas fatalistas para simplesmente condenar o caráter dualista do homem; não devemos encarar os elementos arcaicos do ente como chagas, aspectos negativos da existencia humana. Devemos, ao contrário, aceitar com naturalidade este lado bestial, conferindo um estatuto estético ao grotesco, para não cairmos numa "sindrome de Jô Soares" e nos sentirmos demasiadamente divinos. Se assim não o fosse - se não tivessemos tais elementos arcaicos em nossa constituição - a socialite não sentiria tesão com o fedor exalado pelo mecânico em sua imunda oficina, nem tampouco praguejariamos aos céus ao martelar nosso dedo ao invés do prego.
terça-feira, 4 de março de 2008
Garota garrafa
Quem é a mais nova garota na propaganda de cerveja? Não importa. São todas iguais.
Iguais, ostentando belas silhuetas em cenários paradisíacos. Tin-tin, um brinde ao hedonismo do novo milenio. A loiranegramorenaruiva circula com seu belo biquini em formato de equação simbolica: cerveja=mulher.
Atenção: Agência de publicidade procura mulher entre 20 a 24 meses, de pescoço longo, tonalidade marrom escura, medindo lá seus 600 e tantos mls (já que estamos falando em termos de volume).
E a mulhergarrafa, nada nos diz? Ela não fala. É apenas objeto de apreciação estética. Não tem orientação religiosa, política, nem sexual. Tampouco sabemos se ela é vegan, assexuada ou fã de Julio Iglesias.
São perguntas que ficam. Será muito difícil ao marmanjo masturbar-se ao ver uma fêmeavidro em sua televisão. Não podemos culpá-lo: o pobre telespectador não possui elementos suficientes para enriquecer suas fantasias sexuais (televisivas) a ponto de verter rios de esperma frente a sua imago alcoolica. Seria necessária um manancial de elementos para realmente aquecer a libido presente na vidinha burguesa deste marmanjo.
Gostariamos de saber um pouco mais desta misteriosa garota. Seria ela um porre? Comporta-se de maneira radicalmente sóbria? As indagações permanecem e nossas dúvidas não serão elucidadas num evento efêmero tal qual é uma propaganda de 30 segundos. Tempo, inimigo cruel. Não percamos tempo; deêm-me licença, para que eu tire a última lata de kayser do freezer antes que o tempo trate de congela-la.
Iguais, ostentando belas silhuetas em cenários paradisíacos. Tin-tin, um brinde ao hedonismo do novo milenio. A loiranegramorenaruiva circula com seu belo biquini em formato de equação simbolica: cerveja=mulher.
Atenção: Agência de publicidade procura mulher entre 20 a 24 meses, de pescoço longo, tonalidade marrom escura, medindo lá seus 600 e tantos mls (já que estamos falando em termos de volume).
E a mulhergarrafa, nada nos diz? Ela não fala. É apenas objeto de apreciação estética. Não tem orientação religiosa, política, nem sexual. Tampouco sabemos se ela é vegan, assexuada ou fã de Julio Iglesias.
São perguntas que ficam. Será muito difícil ao marmanjo masturbar-se ao ver uma fêmeavidro em sua televisão. Não podemos culpá-lo: o pobre telespectador não possui elementos suficientes para enriquecer suas fantasias sexuais (televisivas) a ponto de verter rios de esperma frente a sua imago alcoolica. Seria necessária um manancial de elementos para realmente aquecer a libido presente na vidinha burguesa deste marmanjo.
Gostariamos de saber um pouco mais desta misteriosa garota. Seria ela um porre? Comporta-se de maneira radicalmente sóbria? As indagações permanecem e nossas dúvidas não serão elucidadas num evento efêmero tal qual é uma propaganda de 30 segundos. Tempo, inimigo cruel. Não percamos tempo; deêm-me licença, para que eu tire a última lata de kayser do freezer antes que o tempo trate de congela-la.
segunda-feira, 3 de março de 2008
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