Que falar do homem contemporâneo? Que podemos dizer desta criaturinha hiper-moderna, que certa feita pisou na lua, mas que, contudo, ainda tem um pé na caverna?
Ente paradoxal é o ser humano: fetichiza de modo voraz cada novo gadget lançado, mas que, ao mesmo tempo, faz cumprir religiosamente a cartilha rodriguiana de captar A vida como ela é em sua escatologia plena, erotizando pequenos detalhes corporeos, como o fedor de uma axila. O mesmo ser humano, realizador das mais complexas operações, traz à baila também o grotesco, satisfazendo-se com o que há de mais rudimentar, tal como o suor, o esperma, o mijo, e a merda.
Detalhes banais, oriundos de uma vida ordinária compõe o roteiro existencial desta (ordinária?) criatura denominada ser humano. A inspiração, o requinte, a educação - preceitos apreciados por todospara uma boa convivencia - convivem em harmonia (muitas vezes nem tanto, é claro) com o escatologico, ou, nas palavras do poeta "você chora e fede como todo mundo".
O homem civilizado pode tornar-se arcaico (e vice-versa) num curto intervalo temporal; o coito anal é um exemplo disso: algo que propiciou a determinado casal extremo prazer durante uma madrugada, tende a ser evitado nas horas posteriores; com efeito, aquele mesmo objeto, alvo de toda a libido durante a calada da noite, perde o status de "rabo" (ou como lá diabos "cada dois" irá chamá-lo) para tornar-se um mero "ânus" ao meio-dia.
O ente hiper-moderno descobriu a penicilina e mapeou o genoma humano mas, ao mesmo tempo, ainda urra, briga, mata, filia-se a torcidas organizadas e vota no PT.
Contudo, não me debruço em linhas fatalistas para simplesmente condenar o caráter dualista do homem; não devemos encarar os elementos arcaicos do ente como chagas, aspectos negativos da existencia humana. Devemos, ao contrário, aceitar com naturalidade este lado bestial, conferindo um estatuto estético ao grotesco, para não cairmos numa "sindrome de Jô Soares" e nos sentirmos demasiadamente divinos. Se assim não o fosse - se não tivessemos tais elementos arcaicos em nossa constituição - a socialite não sentiria tesão com o fedor exalado pelo mecânico em sua imunda oficina, nem tampouco praguejariamos aos céus ao martelar nosso dedo ao invés do prego.
quarta-feira, 5 de março de 2008
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