Lembro-me de como ele as chamava; referia-se a elas como “nossas meninas”. Na hora do jantar, com feição sisuda e gestos burocráticos perguntava: “por onde andam as nossas meninas?”. (Des)nescessário dizer que este homem era a vitória do pragmatismo e totalmente avesso à qualquer tipo de manifestação comportamental vinculadas à fenômenos nonsense.
Mesmo em seus meses finais quando ele já se encontrava macilento, fragilizado e, mesmo com reais dificuldades para sentar-se à mesa da cozinha (deslocar-se de um lugar a outro, configurava-se como uma atividade de esforço hercúleo) sempre sobrava uma brecha, um momento para questionar acerca do paradeiro de “suas meninas”. Todas as noites, esta pergunta se repetia. Sempre assim.
Contudo, o sempre assim também acaba. De uma hora para outra (ou decorrente alguns meses, no caso de um câncer). Logo, mas logo mesmo, “as meninas” deixaram de ser importantes para este homem enfermo. Não havia mais qualquer tipo de relevância em sua pergunta usual. Aliás, não havia nem mais sequer sua costumeira pergunta acerca “das meninas”. O homem não mais as convocava: sua saúde piorou, “as meninas” continuaram a se insinuar da mesma maneira que antes, contudo, para este homem que padecia de uma moléstia mortal, elas deixaram de existir, de se exibir. Subitamente (nem tanto assim) ele faleceu. Ainda hoje, nestes dias de verão, “as meninas”ainda aparecem por aqui. Quer ele pergunte ou não (ele já não o pode); quer ele as nomeando ou não (ele já não as batiza), “as meninas” aparecem. Figuram em todas as noites, em todas as jantas por volta das 19 horas. “Nossas meninas” (mas principalmente DELE) são graciosas lagartixas que desfilam pelo lado de fora da janela da cozinha...
terça-feira, 25 de março de 2008
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