segunda-feira, 23 de junho de 2008

Pensamento filosofico do dia (ou biscoito da sorte)

Se houvesse cadeira elétrica
Não haveria cerca elétrica.

25 anos

Meu amor. Mil amores. Que os vermes da terra devorem sem pressa teu ventre pragmático. Anseio ver tua derme marmórea ressecada, murcha sob o sol outonal. Não é nada pessoal. Não te culpo.
Tampouco teus hábitos serão recriminados neste instante: tu, ordinariamente bela, travestida em ternos sóbrios. Blindada em ternos túmidos. Jamais ternos tenros.
Teus perfumes em nada conspiraram para destino tão atroz, simplesmente dobram a esquina - já sabem o caminho de casa. Os olores matutinos, borrifados por todos os poros que te participam são ora sóbrios, ora sombrios.
Teu sorriso metalino transborda Know how, como se cada grama de alumínio retorcido soubesse tudo de antemão.
Antes que nos deixe em definitivo, devolva-me o Drummond que guardaste por meses ininterruptos na gaveta da apatia. Retire-o cuidadosamente de lá, deixe que pegue um pouco de ar. Feito isto, sorria um sorriso amarelo para ele. Apenas assim, ele poderá novamente poetar pelas suas próprias pernas; definitivamente desintoxicado da razão plena do lugar comum no qual tão demoradamente permaneceu acondicionado. E calado.
Desejo por fim, que tua ultima morada tenha como epigrafe, palavras cruas, cinzas e formais. Não se preocupe: sepultaremos lado a lado, na mesma vala, afeto e lógica.
E assim, enfim, poderemos descansar.

domingo, 15 de junho de 2008

Poema altruísta ( Ou Mui amigo)

Mulher de alcoolista amigo meu
pra mim é homem.
Não me atire a primeira pedra
quem nunca errou.

Bloco humano.

A televisão no centro da sala faz parte de um altar doméstico. A interferência da família ainda existia, é Clero; o que não impedia, contudo, Luís de estruturar-se numa lógica binária que custava caro, a ele e a sua família.
Durante a semana: pedreiro. Peão de obras. O picaresco analfabeto funcional que assoviava para todas as loiras de farmácia que faziam o carnaval da obra. Assoviava. Ou pitava seu Classic, cigarro não menos falsificado que suas divas louras oxigenadas, musas de cabelos dourados e pentelhos negros que coloriam tão vividamente o mundo cinza e calcinado do operário. Desnecessário dizer que, seu pulmão proletário gradualmente acostumara-se àquelas tragadas paraguaias.
O único agrado à sua derme marrom vinha de seu Avanço; Luís abençoava seus poros com um tubo quinzenal de desodorante. E acompanhando seus olores artificiais, o operário ostentava ainda um esperançoso bigodinho ralo no melhor estilo PCC. Este era o Luís de segunda a sexta-feira, operário, operado pelo sistema e abundante em privações. Mas também alegre e minimamente extrovertido.
Súbito como delirius tremens, o fim de semana dividia de maneira amarga sua persona: seu outro lado batia na soleira da porta de seu barraco todo o fim de sexta-feira.
Deixava de ser mandado no sábado. Deixava de ser cagado pelo seu superior no curral de obras. No fim de semana (mim de semana) seu nome era consternação e deixava de ser olhado com desprezo e aversão pela madame no semáforo que num instante CLIC CLIC, travava sua porta enquanto Luís cortava as ruas com sua Barra Circular em dias de trabalho.
No vazio do deixar de ser (Luís) do fim de semana, não era mais cagado pelas classes A, B e C. Nestes dois dias de descanso, não descansava, cagava de pau. Seus filhos. Ou mulher(es).
Seus punhos –que por cinco dias a fio permaneciam engessados em meio a silêncio, cimento e desigualdade social - respondiam aos seus (não) verdugos a cada mim de semana. Nas fagulhas de Classic que marcavam sua propriedade – seus filhos – ou nos hematomas que minavam sua adorável patroa, Luís não era. A cada ato hostil desferido, Luís não era.
Emudecido como pedreiro, como homem. Sepultado num silêncio como um bloco sólido. Contudo, era corpo líquido em seus intermináveis dois dias de mim de semana: em seus vasos corriam desgosto, descontentamento, alienação, cachaça e rancor. Rancor de um Luís ninguém. Desventura de homem-bloco, ao mesmo tempo sólido e líquido.
Dois gatos pingados.
Yin Yang felino.
Tudo era mais sublime que os pensamentos. Mas (nem) por isto naveguei noites a frio pelos portos seguros contaminados pelo vírus da Aids.
Por saber que a complexidade da vida social é reduzida a escolhas estruturais e binárias quero neste momento abandonar nossos sonhos. Vamos esquecer para sempre de lembrar que devemos abandonar também nossos filhos rosados, anjinhos que ainda nem existem e que trataremos de esquecer na porta da escola. Deixem que chorem suas lágrimas de abandono; ninguém ouvirá sua birra acanhada. Não temos nada mais a ver com isso.
Vamos permanecer omissos, apáticos, deixando que o domingo acabe, fenecendo em silêncio e dando com isso provas cabais da finitude humana. Que o domingo apague! Deus está morto mesmo. Deixe que o domingo vele–O e a segunda-feira chore por Ele. Quase dor, quase onda. A sonora chuva traz o frio da fêmea, linda camponesa.
Violeta, violenta. Vil. Vinho.
Mulata esguia.
Copa Grande & Senzala.
Campo verde.
Onde a coruja dorme.
Quase gol.
Infância:
Vidros e braços quebrados.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Quero ser substância
Para além do orgânico
E do orgasmo.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Um pecado expiado na mata

E todo aquele sangue choroso amontoado sobre a mata? Sangue santo. Sangue purificado.
Sangue outrora virginal, que já fora um dia imaculado. O mesmo vermelho que tempos depois, pululava por entre as veias de alguém que, segundo os demais “já não presta mais”.
A prostituta morta redimida. Redimida depois de morta. Seus pecados foram expiados no silên(cio) da mata. E todos aqueles que até então lançavam olhares ruminantes de pura desaprovação, agora velam por aquele corpo santo sem vida, guardam com carinho aquela estrela. No sereno da noite validam uma carne, um sangue que sangra sem fim naquela clareira.
Os rostos curvados em respeitoso abatimento trazem a redenção para onde antes havia apenas desprezo e indiferença. Zelam agora por uma carne morta que outrora trouxera tantos prazeres para aquela comunidade. Silenciam. Alguns – poucos – soluçam.
E aquela mulher, que em outra feita foi amadorismo, profissionalismo, ou distração fugaz, ou saliva, ouvido, lágrimas encarna – encorpa - agora o corpo coletivo.
No correr da noite, as demais mulheres irão despi-la pela última vez. A nudez da puta desnuda a individualidade de cada homem, mulher e criança daquela comunidade.
A vela é acesa. Os cantos ecoam naquela penumbra de uma terra de ninguém (mas que naquele momento solene de morbidez total é terreno de todos). E agora é tudo tão puro. E agora é tudo tão bíblico, sagrado, sangrado.
E quando eu for lírico
ou límbico
então,
o domingo poderá existir,
e
a segunda-feira sorrir.