domingo, 15 de junho de 2008

Bloco humano.

A televisão no centro da sala faz parte de um altar doméstico. A interferência da família ainda existia, é Clero; o que não impedia, contudo, Luís de estruturar-se numa lógica binária que custava caro, a ele e a sua família.
Durante a semana: pedreiro. Peão de obras. O picaresco analfabeto funcional que assoviava para todas as loiras de farmácia que faziam o carnaval da obra. Assoviava. Ou pitava seu Classic, cigarro não menos falsificado que suas divas louras oxigenadas, musas de cabelos dourados e pentelhos negros que coloriam tão vividamente o mundo cinza e calcinado do operário. Desnecessário dizer que, seu pulmão proletário gradualmente acostumara-se àquelas tragadas paraguaias.
O único agrado à sua derme marrom vinha de seu Avanço; Luís abençoava seus poros com um tubo quinzenal de desodorante. E acompanhando seus olores artificiais, o operário ostentava ainda um esperançoso bigodinho ralo no melhor estilo PCC. Este era o Luís de segunda a sexta-feira, operário, operado pelo sistema e abundante em privações. Mas também alegre e minimamente extrovertido.
Súbito como delirius tremens, o fim de semana dividia de maneira amarga sua persona: seu outro lado batia na soleira da porta de seu barraco todo o fim de sexta-feira.
Deixava de ser mandado no sábado. Deixava de ser cagado pelo seu superior no curral de obras. No fim de semana (mim de semana) seu nome era consternação e deixava de ser olhado com desprezo e aversão pela madame no semáforo que num instante CLIC CLIC, travava sua porta enquanto Luís cortava as ruas com sua Barra Circular em dias de trabalho.
No vazio do deixar de ser (Luís) do fim de semana, não era mais cagado pelas classes A, B e C. Nestes dois dias de descanso, não descansava, cagava de pau. Seus filhos. Ou mulher(es).
Seus punhos –que por cinco dias a fio permaneciam engessados em meio a silêncio, cimento e desigualdade social - respondiam aos seus (não) verdugos a cada mim de semana. Nas fagulhas de Classic que marcavam sua propriedade – seus filhos – ou nos hematomas que minavam sua adorável patroa, Luís não era. A cada ato hostil desferido, Luís não era.
Emudecido como pedreiro, como homem. Sepultado num silêncio como um bloco sólido. Contudo, era corpo líquido em seus intermináveis dois dias de mim de semana: em seus vasos corriam desgosto, descontentamento, alienação, cachaça e rancor. Rancor de um Luís ninguém. Desventura de homem-bloco, ao mesmo tempo sólido e líquido.

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