E todo aquele sangue choroso amontoado sobre a mata? Sangue santo. Sangue purificado.
Sangue outrora virginal, que já fora um dia imaculado. O mesmo vermelho que tempos depois, pululava por entre as veias de alguém que, segundo os demais “já não presta mais”.
A prostituta morta redimida. Redimida depois de morta. Seus pecados foram expiados no silên(cio) da mata. E todos aqueles que até então lançavam olhares ruminantes de pura desaprovação, agora velam por aquele corpo santo sem vida, guardam com carinho aquela estrela. No sereno da noite validam uma carne, um sangue que sangra sem fim naquela clareira.
Os rostos curvados em respeitoso abatimento trazem a redenção para onde antes havia apenas desprezo e indiferença. Zelam agora por uma carne morta que outrora trouxera tantos prazeres para aquela comunidade. Silenciam. Alguns – poucos – soluçam.
E aquela mulher, que em outra feita foi amadorismo, profissionalismo, ou distração fugaz, ou saliva, ouvido, lágrimas encarna – encorpa - agora o corpo coletivo.
No correr da noite, as demais mulheres irão despi-la pela última vez. A nudez da puta desnuda a individualidade de cada homem, mulher e criança daquela comunidade.
A vela é acesa. Os cantos ecoam naquela penumbra de uma terra de ninguém (mas que naquele momento solene de morbidez total é terreno de todos). E agora é tudo tão puro. E agora é tudo tão bíblico, sagrado, sangrado.
terça-feira, 3 de junho de 2008
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