Dimensão Inquietante.
Não existe saudade. Ou dor.
Apenas instante.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
A Nau desflora as pétalas marítimas. Solta-se em disparada aos quatro ventos por caminhos ásperos, ébrios, brutos e róseos. Dentre as embarcações destes mares remotos, avista-se um ponto lá longe, num barquinho distante, uma Nau flagrou outros portos...
A maresia tem sempre o mesmo cheiro divinal.
As sereias têm sempre o mesmo cheiro vaginal.
A nau aprendeu o que sabe na escola das ondas. O pranto cristalino cabe na imensidão do infinito azul. Ou cabe no cilíndrico de um copo. De um corpo.
A maresia tem sempre o mesmo cheiro divinal.
As sereias têm sempre o mesmo cheiro vaginal.
A nau aprendeu o que sabe na escola das ondas. O pranto cristalino cabe na imensidão do infinito azul. Ou cabe no cilíndrico de um copo. De um corpo.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
País tropical
Mahmoud Ahmadinejad é uma criatura ímpar: o homem que questiona a veracidade histórica acerca do Holocausto e ainda, o político que ministra uma palestra na qual profere ameaças e palavras de ordem contra os EUA numa Universidade em pleno território americano é também o mesmo distinto cavalheiro que pede – via Itamaraty -uma camisa do Clube de Regatas Flamengo. Marcio Braga, o atual presidente da instituição ficou atônito: “o cara que quer explodir Israel, me pede uma camisa do Flamengo. Maravilha”.
Do modo como anda a carruagem (ou o carro bomba), pode até ser que, após vestir o manto rubro negro, Mahmoud decida subir o morro e beber cachaça. Ser flamengo ele já é. Apenas falta ter agora uma nega (o escuro da burkha não conta, que fique bem claro!) para alegria de Ben Jor.
Mahmoud Ahmadinejad vestir a camisa do mengão é a prova cabal e definitiva de que nosso país enseja a sina do exótico em sua verve: todos os gringos querem extrair um naco da alegoria extravagante made in Brazil. Não importa de que lugar do globo a criatura seja; sendo “estranja” qualquer um quer um pedaço da fatia da sobremesa exótica destes trópicos: desde o italiano cinquentão e seu inofensivo turismo sexual ou a sueca (que nessa altura do campeonato brasileiro já se encontra alvi-rubra devido ao sol escaldante) nas areias de Copacabana, ou seja ainda simplesmente o presidente do Irã.
Mahmoud vestir uma camisa do Los Angeles Galaxy é como Condoleeza Rice estrelar um filme pornô. Seria impensável (e por que não dizer também, reconfortante? Para nosso próprio bem...). Esta “fantasia de Brasil” é o que faz o Brasil, Brazil.
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad odeia os EUA como o Zeca Pagodinho odeia cerveja sem álcool. Mahmoud abomina os judeus com a mesma intensidade. E daí? Ele tem uma paixão (e agora uma camisa) pelo Flamengo. E é isto que importa.
Do modo como anda a carruagem (ou o carro bomba), pode até ser que, após vestir o manto rubro negro, Mahmoud decida subir o morro e beber cachaça. Ser flamengo ele já é. Apenas falta ter agora uma nega (o escuro da burkha não conta, que fique bem claro!) para alegria de Ben Jor.
Mahmoud Ahmadinejad vestir a camisa do mengão é a prova cabal e definitiva de que nosso país enseja a sina do exótico em sua verve: todos os gringos querem extrair um naco da alegoria extravagante made in Brazil. Não importa de que lugar do globo a criatura seja; sendo “estranja” qualquer um quer um pedaço da fatia da sobremesa exótica destes trópicos: desde o italiano cinquentão e seu inofensivo turismo sexual ou a sueca (que nessa altura do campeonato brasileiro já se encontra alvi-rubra devido ao sol escaldante) nas areias de Copacabana, ou seja ainda simplesmente o presidente do Irã.
Mahmoud vestir uma camisa do Los Angeles Galaxy é como Condoleeza Rice estrelar um filme pornô. Seria impensável (e por que não dizer também, reconfortante? Para nosso próprio bem...). Esta “fantasia de Brasil” é o que faz o Brasil, Brazil.
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad odeia os EUA como o Zeca Pagodinho odeia cerveja sem álcool. Mahmoud abomina os judeus com a mesma intensidade. E daí? Ele tem uma paixão (e agora uma camisa) pelo Flamengo. E é isto que importa.
Ainda sobre a Lei Seca
Desde que entrou em vigor, a Lei Seca tem dividido opiniões; existem os que se postam contra, outros que apóiam-na. Julgo desnecessário fazer apologia a qualquer um destes dois lados. Gostaria de centrar minha atenção em algo que freqüentemente tenho escutado por ai; assim centrarei meu foco na analise do seguinte discurso: “a lei é para quem não sabe beber. E o cidadão de bem, que sabe beber?”. Não me cabe criticar ou defender esta lei, isto não me interessa. Na minha opinião, o que é relevante é analisar este enunciado intrigante.
Que diabos viria a ser o “cidadão que sabe beber?”. Seria aquele que não urina nas calças durante a balada? Ou o que realiza –com pouco ou nenhum esforço - com as pernas “o quatro?”. Ou ainda seriam todos aqueles que colaram um adesivo em seu carro com dizeres do tipo: “sou motorista cidadão: sei beber”.
Será mesmo, que durante a embriaguez na (e da) madrugada alguém poderia alegar “saber beber”, sem trazer o mínimo de risco para si mesmo e terceiros? O que seria isto, este “saber beber?”. Quem poderia se postar como alguém que “sabe beber” e pode, portanto, dar partida em seu carro? O cidadão que “sabe beber” seria aquele que nunca se envolveu diretamente num acidente de carro?
O etilometro produz uma prova cabal, um fato concreto e cientifico. A legislação prevê sanções a quem resolver exceder na dose. Pois bem, apenas e tão somente alegar-se um “cidadão que sabe beber” é uma questão hermenêutica, algo muito mais complexo e abstrato que racionais dados numéricos. È um enunciado moral (ou imoral, conforme o caso e a cara de pau do “cidadão”).Alguns dizem que a Lei Seca veio para ficar. Outros, mais céticos, crêem que será mais um regulamento com vida curta, efêmero como amor de verão juvenil. Não sou futurólogo; não temos como saber acerca do devir. Neste momento, creio apenas que alegar que existem “homens que sabem beber e outros que não sabem beber” é um argumento ilógico, uma modalidade discursiva bem made in Brazil, com um temperinho bem ao gosto do jeitinho brasileiro. Como se no Brasil a cada nova questão polemica que surge precisássemos entrar num transe, num rompante macunaímico para sustentar nossas opiniões
Que diabos viria a ser o “cidadão que sabe beber?”. Seria aquele que não urina nas calças durante a balada? Ou o que realiza –com pouco ou nenhum esforço - com as pernas “o quatro?”. Ou ainda seriam todos aqueles que colaram um adesivo em seu carro com dizeres do tipo: “sou motorista cidadão: sei beber”.
Será mesmo, que durante a embriaguez na (e da) madrugada alguém poderia alegar “saber beber”, sem trazer o mínimo de risco para si mesmo e terceiros? O que seria isto, este “saber beber?”. Quem poderia se postar como alguém que “sabe beber” e pode, portanto, dar partida em seu carro? O cidadão que “sabe beber” seria aquele que nunca se envolveu diretamente num acidente de carro?
O etilometro produz uma prova cabal, um fato concreto e cientifico. A legislação prevê sanções a quem resolver exceder na dose. Pois bem, apenas e tão somente alegar-se um “cidadão que sabe beber” é uma questão hermenêutica, algo muito mais complexo e abstrato que racionais dados numéricos. È um enunciado moral (ou imoral, conforme o caso e a cara de pau do “cidadão”).Alguns dizem que a Lei Seca veio para ficar. Outros, mais céticos, crêem que será mais um regulamento com vida curta, efêmero como amor de verão juvenil. Não sou futurólogo; não temos como saber acerca do devir. Neste momento, creio apenas que alegar que existem “homens que sabem beber e outros que não sabem beber” é um argumento ilógico, uma modalidade discursiva bem made in Brazil, com um temperinho bem ao gosto do jeitinho brasileiro. Como se no Brasil a cada nova questão polemica que surge precisássemos entrar num transe, num rompante macunaímico para sustentar nossas opiniões
terça-feira, 15 de julho de 2008
Escarro no box
Tosse. Tosse. Tosse. Raaaaaathou. Ruuupth.
O sujeito cospe uma vez, no box do banheiro aquele líquido vistoso e viscoso que reluz na altura de seu pescoço. Escarro amarelo marrom, escorrendo lentamente.
Enquanto lava-se, o homem acompanha com excitação o corpo que cai. Enlanguescente catarro, ejaculado de sua garganta. O cuspe é amorfo, se pensado não em suas qualidades propriamente físicas, mas em seu conceito, no contexto. Em suma, é amorfo se pensado em sua matriz genética: Marlboro, caipirinha, "don't look back in anger", canhão de luz. Palavras não ditas. Ou ditas. Ou quase ditas. E outras tantas apenas salivadas.
O vapor passa a preencher por completo o ambiente. As costas daquele indivíduo já estão numa vermelhidão só, pelando de tão quente. O cuspe cai: hora esfrega-se como puta no azulejo, hora é lambido pelo cimento. Seu catarro é então agora passagem do tempo. Lei da física. E também da metafísica: o observador e também pai daquela cusparada é agora um pouco de Goya, pois não terminará sua limpeza corporal enquanto aquele esputo salivar não descansar no ralo metálico.
Ao encontrar o chão, a lágrima para de vez. Deixa-la onde está ou empurra-la com a ajuda d'agua será a questão futura daquele ser. Seu mais novo dilema.
O sujeito cospe uma vez, no box do banheiro aquele líquido vistoso e viscoso que reluz na altura de seu pescoço. Escarro amarelo marrom, escorrendo lentamente.
Enquanto lava-se, o homem acompanha com excitação o corpo que cai. Enlanguescente catarro, ejaculado de sua garganta. O cuspe é amorfo, se pensado não em suas qualidades propriamente físicas, mas em seu conceito, no contexto. Em suma, é amorfo se pensado em sua matriz genética: Marlboro, caipirinha, "don't look back in anger", canhão de luz. Palavras não ditas. Ou ditas. Ou quase ditas. E outras tantas apenas salivadas.
O vapor passa a preencher por completo o ambiente. As costas daquele indivíduo já estão numa vermelhidão só, pelando de tão quente. O cuspe cai: hora esfrega-se como puta no azulejo, hora é lambido pelo cimento. Seu catarro é então agora passagem do tempo. Lei da física. E também da metafísica: o observador e também pai daquela cusparada é agora um pouco de Goya, pois não terminará sua limpeza corporal enquanto aquele esputo salivar não descansar no ralo metálico.
Ao encontrar o chão, a lágrima para de vez. Deixa-la onde está ou empurra-la com a ajuda d'agua será a questão futura daquele ser. Seu mais novo dilema.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
O homem mostarda
Assujeitado. Pobre coitado. Caminha quase sem rumo naquela noite tépida. Com elegância discreta, chuta latinhas e cachorros enlatados que o encontram pela frente. A cidade é pura azia, adornada caprichosamente por bitucas e tampinhas em cada meio-fio amarelo. Alguém lhe pede fogo e pergunta as horas.
“Fogo não tenho. Faltam 15 para o tédio” responde mecanicamente o infeliz assujeitado.
Não é sisudo. Nunca o foi. Apenas não é. Nunca foi.
Deita-se alguns minutos à tarde; seu leito é de morte. Ordinariamente mortal. Morte diária, ordinária. Cada dia mais um pouco; cada dia vislumbra um pouco mais o fastidioso azul da vida. E aquela imensidão o consome, como batidas ritmadas do coração, ou do relógio. Tanto faz. Não é como Goya, a passagem do tempo não lhe faz questão.
E a vida é tão triste e insignificante quanto um dia nublado às cinco horas da tarde. Afinal de contas, seja Pedro, seja pedra, ou seja, padre tudo vai dar em nada.
Mas nem tudo são espinhos plúmbeos em sua não existência. Haja visto que em alguns momentos o cromático de uma alegria nervosa rompe-se em inesperadas tessituras... Seja no sorriso da mulher mal amada, seja no colorido das rosas roubadas. .
“Fogo não tenho. Faltam 15 para o tédio” responde mecanicamente o infeliz assujeitado.
Não é sisudo. Nunca o foi. Apenas não é. Nunca foi.
Deita-se alguns minutos à tarde; seu leito é de morte. Ordinariamente mortal. Morte diária, ordinária. Cada dia mais um pouco; cada dia vislumbra um pouco mais o fastidioso azul da vida. E aquela imensidão o consome, como batidas ritmadas do coração, ou do relógio. Tanto faz. Não é como Goya, a passagem do tempo não lhe faz questão.
E a vida é tão triste e insignificante quanto um dia nublado às cinco horas da tarde. Afinal de contas, seja Pedro, seja pedra, ou seja, padre tudo vai dar em nada.
Mas nem tudo são espinhos plúmbeos em sua não existência. Haja visto que em alguns momentos o cromático de uma alegria nervosa rompe-se em inesperadas tessituras... Seja no sorriso da mulher mal amada, seja no colorido das rosas roubadas. .
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