terça-feira, 15 de julho de 2008

Escarro no box

Tosse. Tosse. Tosse. Raaaaaathou. Ruuupth.
O sujeito cospe uma vez, no box do banheiro aquele líquido vistoso e viscoso que reluz na altura de seu pescoço. Escarro amarelo marrom, escorrendo lentamente.
Enquanto lava-se, o homem acompanha com excitação o corpo que cai. Enlanguescente catarro, ejaculado de sua garganta. O cuspe é amorfo, se pensado não em suas qualidades propriamente físicas, mas em seu conceito, no contexto. Em suma, é amorfo se pensado em sua matriz genética: Marlboro, caipirinha, "don't look back in anger", canhão de luz. Palavras não ditas. Ou ditas. Ou quase ditas. E outras tantas apenas salivadas.
O vapor passa a preencher por completo o ambiente. As costas daquele indivíduo já estão numa vermelhidão só, pelando de tão quente. O cuspe cai: hora esfrega-se como puta no azulejo, hora é lambido pelo cimento. Seu catarro é então agora passagem do tempo. Lei da física. E também da metafísica: o observador e também pai daquela cusparada é agora um pouco de Goya, pois não terminará sua limpeza corporal enquanto aquele esputo salivar não descansar no ralo metálico.
Ao encontrar o chão, a lágrima para de vez. Deixa-la onde está ou empurra-la com a ajuda d'agua será a questão futura daquele ser. Seu mais novo dilema.

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