Assujeitado. Pobre coitado. Caminha quase sem rumo naquela noite tépida. Com elegância discreta, chuta latinhas e cachorros enlatados que o encontram pela frente. A cidade é pura azia, adornada caprichosamente por bitucas e tampinhas em cada meio-fio amarelo. Alguém lhe pede fogo e pergunta as horas.
“Fogo não tenho. Faltam 15 para o tédio” responde mecanicamente o infeliz assujeitado.
Não é sisudo. Nunca o foi. Apenas não é. Nunca foi.
Deita-se alguns minutos à tarde; seu leito é de morte. Ordinariamente mortal. Morte diária, ordinária. Cada dia mais um pouco; cada dia vislumbra um pouco mais o fastidioso azul da vida. E aquela imensidão o consome, como batidas ritmadas do coração, ou do relógio. Tanto faz. Não é como Goya, a passagem do tempo não lhe faz questão.
E a vida é tão triste e insignificante quanto um dia nublado às cinco horas da tarde. Afinal de contas, seja Pedro, seja pedra, ou seja, padre tudo vai dar em nada.
Mas nem tudo são espinhos plúmbeos em sua não existência. Haja visto que em alguns momentos o cromático de uma alegria nervosa rompe-se em inesperadas tessituras... Seja no sorriso da mulher mal amada, seja no colorido das rosas roubadas. .
quinta-feira, 10 de julho de 2008
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