Lucila prezava o hábito da leitura com verdadeiro fervor asceta. Mas não apenas isto. A garota de 20 e poucos anos amava as entrelinhas do livro: para além das intenções e abstrações do autor, Lucila primava principalmente pelo espaço do entre linhas. O branco vazio.
Quando nossa querida Lucila retirava um livro do acervo da biblioteca, seu prazer transcendia o simples hábito da leitura; com efeito, esta atividade encontrava-se para-além do prazer estético da recepção das idéias do autor de um determinado livro. Seu mais gozar referia-se ao hábito de ruminar acerca das entrelinhas. E ruminava mesmo!
Tais entrelinhas realmente faziam questão para a garota, eram impressões imagéticas de valor vital: “por que alguém sublinhou este parágrafo? por que diabos exatamente nesta página?” Perguntava-se Lucila.
A universitária desprendia enorme valor erótico ao elaborar seus questionamentos: “quem era este alguém (que chegou rabiscando tudo antes de mim)?” Seria o rabiscador um intelectual? Ou uma garota fútil cuja única preocupação acadêmica residia em tirar uma nota razoável na cadeira de Ética, para assim poder retornar à sua vida sem sentido, à sua felicidade paradoxal dada por seu armário embutido, suas novas aquisições da Ellus e finalmente à sua efêmera e frívola felicidade oriunda da combinação drink + vida noturna? Ou seria o pichador de livros uma bicha niilista? Importava-se este ente imaginado com o fato de estar danificando (com rabiscos e comentários pedantes e inócuos) propriedade coletiva?
Por que? O que? Onde? Quando? Como? Perguntas intermitentes na mente de Lucila. A menina ponderava que alguns destes rabiscadores desejavam simplesmente depositar a semente – seu esperma esferográfico – de suas idéias, uma espécie de “mapa da mina” para que os próximos locatários pudessem de alguma forma orientar-se no mundo perigoso e sedutor das entrelinhas. Havia, é claro, para a garota os não pichadores profissionais de livros; estes apenas estariam riscando linhas e mais linhas num ato de repetição maçante e mecânica; tal qual o lugar onde a vida imita a arte.
Sendo ou não um rabiscador profissional das entrelinhas, todos estas personagens ocupavam o universo de ruminações e devaneios de Lucila... Tais questões marcavam-na profundamente. E a garota, também marcava profundamente o texto; marcava sua sombra nas entrelinhas, sublinhava, sublinhava e sublinhava (sublimava)?
E Lucila perdurava em sua busca errante de estabelecer – a cada vazada de tinta - comunicação com o (virtual) predecessor da leitura do livro. Para tal feito, rabiscava forte, de forma decidida, a ponto de machucar a celulose. Tudo a fim de abrir caminho para Outrem. A desbravadora universitária sangrava reto (usava régua ou marcador de páginas) o papel munindo-se de tinta azul. Ou preta. Ou vermelha. MAS NUNCA caneta marca texto: esta luminosa tinta, não deixava espaço para o entrelinhas poder respirar e transar livremente. A caneta marcatexto seria estéril, o mecânico, o sem graça. A esferográfica, ao contrario, singrava sangrando o intertexto das entrelinhas de maneira graciosa (mesmo nos momentos de se quase chegar a rasgar o papel, tamanha a fúria depositada em tal feitura). Neste branco presente (ou ausente, tudo dependendo dos postulados perceptivos empregados daquele que avaliaria o citado espaço) encontrava-se a (vã) esperança de Lucila deparar-se com um ouvinte que pudesse tornar-se sua contraparte, sua voz irmã.
Assim, na devolução (ou ENTREGA, no sentido PLENO DO TERMO) de cada livro, um misto de alívio e apreensão. Por um lado, sensação de dever cumprido. Por outro, sentimento de inquietude. Desassossego frente a seus “futuros leitores”.
Pobre garota no fim das contas. A resolução dos mistérios que abarcavam as brancuras momentâneas e ortopédicas de sua vida – e de sua relação com o universo do livresco - não seriam sanadas nem hoje nem nunca. Mesmo procurando atentamente nas entrelinhas do contrato.
terça-feira, 25 de março de 2008
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